Quando eu descobri que aquele meu primeiro psiquiatra estava dando aulas na minha faculdade, eu confesso não ter ligado muito. Era passado, eu já havia superado todas aquelas coisas, afinal já tinha se passado vários anos.
Meu primeiro contato com ele foi no 9º período, vou contar como foi a experiência......
O estágio era dividido em 4 grupos, e ele fazia uma reunião com cada grupo antes dos atendimentos, para explicar as particularidades dos atendimentos de saúde mental.
Quando chegou no dia da reunião do meu grupo, era numa sala grande, tinha uma mesa grande, formato ovalado, e várias cadeiras em volta, ele se sentou e os colegas começaram a se sentar em volta, fui a última a me sentar, a cadeira que tinha sobrado era do outro lado em que ele havia se sentado, porém, de frente.
Trocamos olhares o tempo todo e algumas vezes ele apertava o olho tentando enxergar melhor e se inclinava pra frente em minha direção.
Eu pensei: ele não vai me reconhecer, já se passaram 5 anos, não tenho mais cabelos vermelhos, mudei bastante.
Ele se inclinou 2 vezes como se tentasse ler alguma coisa na minha direção e na terceira vez ele não aguentou e perguntou:" - Qual é o seu nome? O está escrito aí no seu jaleco?" E quando eu respondi, ele reconheceu meu sobrenome, é bastante diferente, acho que marcou. E então ele disse: "- Ah sim, já lembrei de onde eu te conheço"
Isso foi do nada, no meio da reunião, e todo mundo ficou me olhando sem entender nada, e ele seguiu como se nada tivesse acontecido.
No final da reunião os colegas vieram me perguntar o que foi aquilo, e eu achei aquilo ridículo, falta de ética e me deixou sim sem graça. Mas eu superei e terminei este estágio tranquila, levando as coisas de forma leve.
O nosso segundo encontro foi agora no 12º período.... E confesso que tem sido tenso algumas situações... ele não sabe o nome de ninguém, faz pose de estrela, mas sou a única que ele chama pelo nome, repete meu nome pelos corredores da clínica. Que coisa, não? Na época era o médico mais recomendado da cidade, era super dificil uma consulta mesmo com o preço absurdo (e só atendia particular) e hoje o consultório está vazio, ele tem que dar aulas e trabalhar em posto de saúde para se manter?
Uma das últimas aulas ele passou um filme sobre freud, psicanálise e hipnose. Eu sabia (já desde a epóca em que me tratei com ele) que ele faz sessões de hipnose no consultório dele. Então fiz uma pergunta sobre como a hipnose atua no tratamento da psiquiatria hoje em dia e ele me respondeu de forma super seca, dizendo que não acredita muito e não é a favor (na minha opinião ele é um charlatão então... como é que ele cobra caro num procedimento que ele mesmo não acredita???)
Enfim, o clima ficou meio tenso, senti que ele não ficou a vontade com aquela pergunta... e continuou falando sobre outros procedimentos que ele não acredita, do tipo ir um grupo de pessoas passar um final de semana no mato, ou terapia cognitiva comportamental, pois ele não acha que ninguém tem o direito de falar o que a gente tem que fazer.
Que ele tem pavor de certas dinâmicas, igual tem em escolas, do tipo uma pessoa escrever um defeito da outra, etc...
E essas coisas me impressionaram.... Como pode uma pessoa não saber aceitar críticas, falar sobre seus defeitos?
Mas eu só sabia rir....
Na próxima aula, era ambulatório e a gente atende os pacientes e discute o caso com um dos preceptores disponíveis (são 4 psiquiatras então eu sempre ''fugia'' de discutir casos com ele, preferia um dos outros 3) mas neste dia os outros preceptores atrasaram e só tinha ele disponível. Fui discutir o caso da minha paciente com ele, uma mulher gravemente deprimida, havia se jogado de uma ponte esta semana, chorou a consulta inteira e dizia que iria tentar se matar novamente. Ele perguntou minha opinião, eu sugeri alguns diagnósticos e medicações, ele criticou, discordou e disse que não ia passar nada pra ela. Pediu pra que ela voltasse na próxima semana para convesar e direcionar perguntas da psicanálise para ela.
Saí muito triste, pensativa e com uma certa revolta este dia.... como pode tratar o sofrimento humano daquela maneira? Com certeza é pq não era a filha dele, ou a mãe dele né.... Quanto descaso... Quanta insensibilidade...
Enfim, preciso manter minha calma e minha fé!
Nenhum comentário:
Postar um comentário