Boa tarde queridos...
Retornando então a cronologia dos fatos:
Há mais ou menos dois meses iniciei um período muito bom, até bom demais pra ser verdade. Rs
Comecei com insônia, mas meu corpo não sentia falta do sono, acordava cedo, ia trabalhar super cedo, muito comunicativa, social e eficiente no hospital.. Estava gastando cerca de 3h pra fazer um serviço que geralmente levo 7h para fazer.
Opa... Não demorou pra eu perceber que não estava normal, já conheço tudo isso e logo identifiquei que era uma fase de hipo-mania / euforia iniciando.
Fiquei um pouco receiosa pq sei muito bem o abismo que se abre quando toda essa animação passa. Mas me sentia tão bem que nem pensava mais nisso.
Comprei uma impressora, comprei um violão, cozinhava todos os dias coisas diferentes, pesquisando mil receitas, muitas vezes cozinhando com tanta vontade que nem dava conta de comer muito. Arrumei um professor de violão particular, voltei a desenhar, pintar, e quando percebia estava fazendo mil coisas ao mesmo tempo! Me sentindo maravilhosamente bem como há tempos não sentia!!
Mas o ciclo é cruel, e o preço é alto. Essa tal euforia nos custa muito caro, e em poucas semanas começei a pagar com as lágrimas, as angústias, os pensamentos ruins!
Odeio essa sensação de perda de controle, a "queda" é muito forte, há alguns dias eu me sentia ótima, uma médica competente, uma pessoa agradável e querida e agora havia levado um tapa na cara da realidade: comecei a ficar sem energia, sem vontade, fraca, uma péssima profissional, um peixe fora d'agua, um alien.
Levantar da cama passou a ser um tormento, não por dificuldade de acordar cedo (nunca tive problema com isso) mas por falta de energia mesmo, sensação de estar pesando uns 200kg (e não deve ta tão longe disso), desânimo, falta de vontade para trocar de roupa, pra tomar banho, pra comer... E passei a me alimentar apenas de iogurte e sucrilhos, com longos períodos de jejum e é óbvio que isso tambem contribuia para eu estar cada dia mais fraca e com mal estar. Mas eu não conseguia preparar nenhum alimento, nem ir ao supermercado, já não conseguia mais arrumar a casa, que ficou caótica mesmo tendo uma faxineira uma vez na semana. Era difícil até voltar com a toalha pro banheiro.
Crises de choro sem fim. Uma angústia devastadora, uma dor na alma indescritível!!! Pq eu estava assim? Não tinha acontecido nada demais para desencadear tanta tristeza, mas as frustrações do dia-a-dia normais me afetavam muito. Coisas pequenas se tornavam gigantes. Até um bom dia não respondido era motivo pras lagrimas escorrerem.
A vontade de morrer voltou, voltou forte, tentava tirar isso da cabeça de todas as maneiras possíveis, tentava pensar nos pontos positivos da vida, minha família, meu namoro, minha carreira.. Mas isso não estava sendo suficiente pra afastar esses pensamentos. A coisa foi evoluindo, me dominando, me peguei planejando várias oportunidades pra me matar, mas caía no choro. Não queria pensar nisso. Nao queria estar assim. Mas nada que eu tentava aliviava. Pedi socorro a Deus, Ele parecia nao ouvir. Resolvi passar o fim de semana na minha cidade, talvez fosse uma boa maneira de aliviar tudo isso...
Minto quando disse que Deus não me ouviu... naquele dia Ele colocou uma pessoa que me pediu carona até a minha cidade. Agora eu tinha uma pessoa comigo no carro, teria que dirigir com cuidado, jamais colocaria a vida de outra pessoa em risco. E dirigi calmamente, chegando sem intercorrências.
O fim de semana prometia ser bacana, todo mundo feliz com minha chegada, com mil planos e eu mais uma vez chorava por dentro. Meus irmãos fizeram um churrasco, convidaram amigos, compraram bebidas, desci pra 'marcar presença' e não ficar de chata, fiquei cerca de 30min e subi para o quarto alegando dor de cabeça e sono. Do quarto ouvia as risadas, as conversas animadas, sempre gostei tanto de participar de tudo isso. E começei a pensar em tanta coisa que eu não estava dando conta de fazer. E mais crises de choro, até soluçar e dormir.
No outro dia acordei, arrumei minhas coisas, queria viajar mais cedo.. Pra ficar um pouco sozinha, além de eu estar sendo uma péssima companhia, sentia que estava deixando as pessoas preocupadas por mais eu tentasse não transparecer nada. Não funcionou. Meu irmão mais velho me chamou no quarto, perguntou o que estava acontecendo, disse que me conhecia e tava percebendo que eu nao estava bem, eu disse que estava tudo bem. Ele perguntou se eu estava bem para dirigir, eu disse que sim. Ele insistiu que eu não estava bem, que não iria me deixar dirigir e o abracei forte em crise de choro novamente. Ele colocou minhas coisas no carro e viajou comigo dirigindo o meu carro. Ficou comigo uns dois dias, eu ja estava mais tranquila, tinha acrescentado mais um antidepressivo recomendado por aquele meu amigo psiquiatra. E ai meu irmão pegou o onibus de volta........
sábado, 22 de novembro de 2014
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Uma doente mental querendo cuidar de outros doentes mentais
Com o tempo, comecei a sentir falta do resto da medicina... psiquiatria é uma coisa muito a parte e específica, meio isolada, mesmo que não deveria ser. Já não levava nem estetoscópio para os atendimentos, e clínica médica é uma coisa que se esquece muito rápido se não estiver sempre em contato. Resolvi então começar a dar plantões no pronto-socorro de um dos grandes hospitais da cidade, era uma forma de me manter estudando, manter o mínimo de conhecimento geral que um médico tem quando sai da faculdade. Acho que meu caminho foi ao contrário, poucos saem restringindo seus conhecimentos a uma área específica, ainda mais em psiquiatria (que muitos nem consideram medicina). O comum é o recém formado continuar mantendo sua atuação e seus estudos na medicina geral, até porque para serem aprovados na prova de residência é necessário esse conteúdo abrangente, as questões não são específicas da área que você pretende seguir.
Não sei se tudo isso que estou dizendo era o que eu realmente pensava ou se era uma forma de arrumar uma justificativa para mim mesma e para aqueles que estavam próximos de mim, porque toda vez que falava que eu estava desanimada com a pós-graduação de psiquiatria, que estava querendo desistir, todos a minha volta se desesperavam, talvez reflexo de tudo que passaram comigo no passado. Mesmo não morando mais com eles, minha família estava percebendo que as coisas não iam muito bem. Minha mãe viajou para visitar igrejas famosas por "milagres", fez rituais para a minha "cura" e era desesperador para ela sentir que eu estava ficando diferente novamente.
Não queriam deixar que eu largasse tudo, e começou novamente o inferno. E mesmo que eu falasse que eu não estava mais animada com aquilo, que minhas expectativas quanto a pós-graduação não estavam sendo satisfatórias, que o curso estava fraco, que mesmo depois que eu me formasse não seria psiquiatra, que a única vantagem do curso seria pontos para quando eu tentasse a prova de título, e que mesmo assim a associação brasileira de psiquiatria só permite tentar a prova com 5 anos de formado. Tentei argumentar que fazer uma residência médica é essencial para uma boa formação, que faz toda diferença na carreira, que eu ia tentar estudar, voltar pro medcurso pra começar a tentar as provas ano que vem. Era algo muito difícil, a concorrência é maior do que a do vestibular e as provas não são específicas.
O medo que eles tinham de eu estar tomando uma decisão precipitada era maior do que qualquer argumento, falavam pra eu terminar primeiro a pós-graduação pra depois não correr o risco de arrepender. Eu e minha mania de começar as coisas e não terminar, dizem que é característica do transtorno bipolar, já eu, acho que é covardia mesmo e medo da vida.
Mas o destino brinca com a gente... abriram inesperadamente inscrições para o processo seletivo unificado de MG de residência médica de vagas remanescentes e a data da prova iria coincidir com a data que eu estaria em BH, na pós graduação. Angustiada e transtornada resolvi me inscrever, mas também não sabia o que queria tentar... Infectologia? Clinica médica? Cirurgia? Anestesiologia? quanta angústia. acabei optando por clínica médica porque é pré-requisito para muitas outras especialidades que também me interesso como cardiologia, pneumologia, oncologia, geriatria, medicina intensiva... etc.. e optei também por Infectologia por ser bem parecido com clínica, ter muita relação. Enfim, quando cheguei no local da prova tive uma crise de pânico, fiquei gelada, suando, com sensação de que ia desmaiar ou morrer, queria sair correndo dalí. prova difícil, saí de lá me sentindo idiota por inventar tanta coisa na minha cabeça. Querer tanto e nada ao mesmo tempo. Tudo isso não pode ser consequencia do transtorno bipolar, não posso colocar a culpa de tudo nele. Tenho que admitir minhas covardias e limitações.
O resultado me surpreendeu muito, fiquei na lista de espera de 3 lugares, mas bem colocada. Fui chamada para o hospital de infectologia, quanta alegria! A felicidade e orgulho do meu pai me emocionaram, nunca tinha visto uma reação dessa vindo dele. Minha mãe comemorando como se fosse um vestibular. O hospital deu o prazo de 48h para me matricular. No mesmo dia minha mãe pegou o onibus comigo, era uma cidade desconhecida, distante, mas aparentemente bacana, com boas opções de lazer, seria interessante morar alí. A primeira impressão foi boa. No dia seguinte fui cedo ao hospital, o chefe queria que eu começasse a trabalhar no próximo dia de manhã, achei uma loucura, não teria como, não tinha levado nada pra ficar. Não me senti bem acolhida pelos R2 (residentes do 2º ano), já foram me passando escala de plantões, aulas, atendimentos, quanto desespero para um dia só. Minha mãe estava me esperando na porta do hospital e quando viu minha cara começou a acender um cigarro atrás do outro. Eu não conseguia falar uma palavra sequer. Ela também não. Fomos em silêncio até o hotel. Minha cabeça estava a mil, meu coração dizia que eu não deveria ficar, ao mesmo tempo a razão dizia que eu não poderia perder essa chance.
Conversei pouco com minha mãe, não consegui falar muito, só disse que não sabia se eu ia dar conta de ficar alí. Minha mãe fez uma cara de decepção que cortou meu coração, falou que eu não podia desistir, que Deus não me daria outra chance dessa, e ela tinha razão, ser aprovada numa residencia médica, tão difícil, sem estudar era quase mesmo que um milagre, provavelmente isso não aconteceria novamente. Fui tomar um banho, chorei muito, me senti péssima, sentia que estava perdendo o controle da vida, estava perdida, sem rumo, sem saída, tive vontade de correr, me cortar, de conseguir uma forma de aliviar tanta angústia, de acalmar meus pensamentos. Saí do banho e conversei com minha mãe, eu era a 2ª colocada da lista de espera em outro hospital, em outra cidade, mais próxima da minha, cidade que eu já conhecia e para a especialidade de clínica médica. O prazo para convocação da lista de espera terminava no dia seguinte, depois de tanto pensar, decidi que eu iria aguardar até o próximo dia, se eu fosse chamada para esta outra cidade eu iria. Caso contrário, eu iria cancelar a matricula dali e desistir de cursar residência por enquanto.
Minha mãe não respondeu, foi até o telefone, pediu autorização do hotel para uma chamada interurbana, disse que tinha sido intuída a ligar para o hospital em que eu estava em 2ª colocação. Morri de vergonha, se eu tivesse que ser convocada, entrariam em contato, não o contrário, ligar pra lá iria parecer praticamente pedir a vaga. Para minha surpresa, a pessoa que atendeu o telefone disse que estava tentando entrar em contato comigo há mais de 24h, para me chamar. ligava para o telefone fixo da minha casa e ninguém atendia e eu não havia deixado contato de celular, que ela já estava desistindo e já ia ligar para o próximo da lista.
É, parece mesmo ter sido Deus, ter sido coisa do destino, não existem tantas coincidencias e sortes assim, eu não podia deixar a depressão se fortalecer, a vida parecia dessa vez estar a meu favor. Agora teria que pegar o onibus de volta depressa para chegar até a outra cidade no dia seguinte a tempo de me matricular. E dessa vez, independente da minha impressão do hospital, independente dos meus pensamentos descontrolados eu teria que ficar. Foi a promessa que eu fiz......
Não sei se tudo isso que estou dizendo era o que eu realmente pensava ou se era uma forma de arrumar uma justificativa para mim mesma e para aqueles que estavam próximos de mim, porque toda vez que falava que eu estava desanimada com a pós-graduação de psiquiatria, que estava querendo desistir, todos a minha volta se desesperavam, talvez reflexo de tudo que passaram comigo no passado. Mesmo não morando mais com eles, minha família estava percebendo que as coisas não iam muito bem. Minha mãe viajou para visitar igrejas famosas por "milagres", fez rituais para a minha "cura" e era desesperador para ela sentir que eu estava ficando diferente novamente.
Não queriam deixar que eu largasse tudo, e começou novamente o inferno. E mesmo que eu falasse que eu não estava mais animada com aquilo, que minhas expectativas quanto a pós-graduação não estavam sendo satisfatórias, que o curso estava fraco, que mesmo depois que eu me formasse não seria psiquiatra, que a única vantagem do curso seria pontos para quando eu tentasse a prova de título, e que mesmo assim a associação brasileira de psiquiatria só permite tentar a prova com 5 anos de formado. Tentei argumentar que fazer uma residência médica é essencial para uma boa formação, que faz toda diferença na carreira, que eu ia tentar estudar, voltar pro medcurso pra começar a tentar as provas ano que vem. Era algo muito difícil, a concorrência é maior do que a do vestibular e as provas não são específicas.
O medo que eles tinham de eu estar tomando uma decisão precipitada era maior do que qualquer argumento, falavam pra eu terminar primeiro a pós-graduação pra depois não correr o risco de arrepender. Eu e minha mania de começar as coisas e não terminar, dizem que é característica do transtorno bipolar, já eu, acho que é covardia mesmo e medo da vida.
Mas o destino brinca com a gente... abriram inesperadamente inscrições para o processo seletivo unificado de MG de residência médica de vagas remanescentes e a data da prova iria coincidir com a data que eu estaria em BH, na pós graduação. Angustiada e transtornada resolvi me inscrever, mas também não sabia o que queria tentar... Infectologia? Clinica médica? Cirurgia? Anestesiologia? quanta angústia. acabei optando por clínica médica porque é pré-requisito para muitas outras especialidades que também me interesso como cardiologia, pneumologia, oncologia, geriatria, medicina intensiva... etc.. e optei também por Infectologia por ser bem parecido com clínica, ter muita relação. Enfim, quando cheguei no local da prova tive uma crise de pânico, fiquei gelada, suando, com sensação de que ia desmaiar ou morrer, queria sair correndo dalí. prova difícil, saí de lá me sentindo idiota por inventar tanta coisa na minha cabeça. Querer tanto e nada ao mesmo tempo. Tudo isso não pode ser consequencia do transtorno bipolar, não posso colocar a culpa de tudo nele. Tenho que admitir minhas covardias e limitações.
O resultado me surpreendeu muito, fiquei na lista de espera de 3 lugares, mas bem colocada. Fui chamada para o hospital de infectologia, quanta alegria! A felicidade e orgulho do meu pai me emocionaram, nunca tinha visto uma reação dessa vindo dele. Minha mãe comemorando como se fosse um vestibular. O hospital deu o prazo de 48h para me matricular. No mesmo dia minha mãe pegou o onibus comigo, era uma cidade desconhecida, distante, mas aparentemente bacana, com boas opções de lazer, seria interessante morar alí. A primeira impressão foi boa. No dia seguinte fui cedo ao hospital, o chefe queria que eu começasse a trabalhar no próximo dia de manhã, achei uma loucura, não teria como, não tinha levado nada pra ficar. Não me senti bem acolhida pelos R2 (residentes do 2º ano), já foram me passando escala de plantões, aulas, atendimentos, quanto desespero para um dia só. Minha mãe estava me esperando na porta do hospital e quando viu minha cara começou a acender um cigarro atrás do outro. Eu não conseguia falar uma palavra sequer. Ela também não. Fomos em silêncio até o hotel. Minha cabeça estava a mil, meu coração dizia que eu não deveria ficar, ao mesmo tempo a razão dizia que eu não poderia perder essa chance.
Conversei pouco com minha mãe, não consegui falar muito, só disse que não sabia se eu ia dar conta de ficar alí. Minha mãe fez uma cara de decepção que cortou meu coração, falou que eu não podia desistir, que Deus não me daria outra chance dessa, e ela tinha razão, ser aprovada numa residencia médica, tão difícil, sem estudar era quase mesmo que um milagre, provavelmente isso não aconteceria novamente. Fui tomar um banho, chorei muito, me senti péssima, sentia que estava perdendo o controle da vida, estava perdida, sem rumo, sem saída, tive vontade de correr, me cortar, de conseguir uma forma de aliviar tanta angústia, de acalmar meus pensamentos. Saí do banho e conversei com minha mãe, eu era a 2ª colocada da lista de espera em outro hospital, em outra cidade, mais próxima da minha, cidade que eu já conhecia e para a especialidade de clínica médica. O prazo para convocação da lista de espera terminava no dia seguinte, depois de tanto pensar, decidi que eu iria aguardar até o próximo dia, se eu fosse chamada para esta outra cidade eu iria. Caso contrário, eu iria cancelar a matricula dali e desistir de cursar residência por enquanto.
Minha mãe não respondeu, foi até o telefone, pediu autorização do hotel para uma chamada interurbana, disse que tinha sido intuída a ligar para o hospital em que eu estava em 2ª colocação. Morri de vergonha, se eu tivesse que ser convocada, entrariam em contato, não o contrário, ligar pra lá iria parecer praticamente pedir a vaga. Para minha surpresa, a pessoa que atendeu o telefone disse que estava tentando entrar em contato comigo há mais de 24h, para me chamar. ligava para o telefone fixo da minha casa e ninguém atendia e eu não havia deixado contato de celular, que ela já estava desistindo e já ia ligar para o próximo da lista.
É, parece mesmo ter sido Deus, ter sido coisa do destino, não existem tantas coincidencias e sortes assim, eu não podia deixar a depressão se fortalecer, a vida parecia dessa vez estar a meu favor. Agora teria que pegar o onibus de volta depressa para chegar até a outra cidade no dia seguinte a tempo de me matricular. E dessa vez, independente da minha impressão do hospital, independente dos meus pensamentos descontrolados eu teria que ficar. Foi a promessa que eu fiz......
Os pensamentos....
Vou iniciar este texto respondendo as perguntas que deixei em aberto na última postagem...
Desde a formatura estava sem tomar nenhum medicamento. A gente tem mania de achar que os problemas são resolvidos com as 'conquistas terrenas'. Por muitos anos pensava dessa maneira: que eu seria feliz depois que eu conseguisse chegar na formatura, que eu conseguiria cuidar das pessoas necessitadas, que esta profissão me faria muito feliz e realizada, que com o tempo eu conseguiria minha independência financeira, conseguiria sair da casa dos meus pais, conseguiria comprar um apartamento, um carro, conseguiria me casar e ter uma família.
De fato consegui alcançar alguns desses sonhos. E percebi que sair de casa, montar um apartamento, mesmo que alugado foi muito bom, aprendi a me virar sozinha em várias coisas, aprendi a lidar com gastos, me sustentar sozinha, afazeres domésticos, ser mais resolutiva, ter menos medo da sociedade, já que até então era minha mãe que resolvia tudo e não me preocupava.
Logo comprei meu primeiro carro, em longas parcelas, e tive orgulho de ver os frutos da minha dedicação ao trabalho. Ainda não consegui comprar um apartamento, mas me casar pretendo em breve.
Como eu disse, todas essas coisas foram marcantes na minha vida, mas não foram a solução de tudo. Quem dera a vida fosse tão fácil assim e a felicidade estivesse nesses fatos. Viver dói. E a cada dia doía mais. Não sabia porque, ou na verdade sabia mas não tinha coragem de reconhecer que era a instabilidade do transtorno bipolar novamente. Não, isso não era possível, por muito tempo não pensei nele e ele não mais existia para mim. Mas ele não me esqueceu, esteve me cutucando o tempo todo, procurando várias formas de me chamar a atenção, de me atingir, e eu continuava fingindo que ele não estava ali.
Já estava há quase um ano no CAPS, tinha um psiquiatra que me ajudava muito, me dava força para seguir na psiquiatria, que eu tinha "jeito", de fato meu desempenho me agradava, conseguia bons resultados (dentro do possível) com meus pacientes. Uma amiga psicóloga me convidou para avaliar alguns pacientes dela em seu consultório, e quando percebi, já estava com clientes particulares e dividindo o consultório com ela. Realmente tive um certo destaque em pouco tempo de atuação (e só consegui perceber isso hoje, relatando os fatos).
O Consultório na rua era cansativo, rodar a cidade atrás de moradores de rua para atender, realizar as consultas sentada na calçada, debaixo do sol, estar no ambiente deles, vê-los fumando crack na nossa frente, bebendo, brigando por um cobertor, assistir de perto o medo e preconceito da sociedade. Ouvir tantas histórias difíceis de vida e entender o motivo de estarem na rua, o motivo de se prostituirem, o desespero do vício da droga, da fissura, saber que por tras de tanta coisa "absurda" aos nossos olhos existem seres humanos, com sentimentos, com dificuldades extremas.
Mas eu gostava, me sentia útil, sentia que fazia alguma diferença, mesmo que pequena na vida daquelas pessoas, que no início nos recebiam receiosos, desconfiados, tentavam ser hostil, nos desafiar, mas com o passar dos dias aprenderam a confiar na gente.
Era gratificante ver o sorriso deles quando avistavam o carro da equipe, a preocupação de conseguirem um pedaço de papelão pra gente sentar sem se sujar. Tive a oportunidade de fazer o pré-natal de algumas delas, pegar seus bebes no colo. Tratei sífilis congênita em recem-nascido, tratei abstinência em gestantes, tratei feridas de agressões físicas, tratei esquizofrenia, depressão, sarna, tuberculose, HIV, infecções de pele imundas, cheias de larvas. Era uma equipe fantástica, topavam de tudo, desde perseguir e segurar um paciente em surto no meio da rua para ser medicado, até levá-los para tomar banho. Apesar da exaustão física, me fazia um bem danado pra alma, fico feliz que a equipe ainda contínua.
Claro, nem tudo é lindo assim, lidar com esse tipo de paciente é perigoso, sofri ameaças, agressões verbais, perseguições. Com o tempo, tudo foi tornando-se extenuante, e as crises vieram. Crises de choro, desânimo, ansiedade, insônia, vontade de desistir de tudo, não tive mais coragem de voltar na minha psiquiatra, comecei a tomar um antidepressivo por indicação daquele meu amigo psiquiatra do CAPS, cheguei na dose máxima para dar conta de tudo, mas não conseguia controlar minhas alterações do humor, passei a implicar com a equipe de trabalho, a perder a paciência com os pacientes que iniciavam uma melhora, iam muito bem e depois abandonavam tudo e voltavam para o vício do alcool e das drogas. Quem sou eu pra criticar isso...rs. quantas vezes senti isso na pele... com eles não seria diferente, não podia ser, porque este é a parte mais difícil da saúde mental, muitas vezes voce consegue melhorar um paciente e estabiliza-lo, mas cedo ou tarde vem as crises, as recaídas, parece maldição.
Não podia mais continuar cuidando da saúde mental dos outros se nem a minha estava indo bem........
Desde a formatura estava sem tomar nenhum medicamento. A gente tem mania de achar que os problemas são resolvidos com as 'conquistas terrenas'. Por muitos anos pensava dessa maneira: que eu seria feliz depois que eu conseguisse chegar na formatura, que eu conseguiria cuidar das pessoas necessitadas, que esta profissão me faria muito feliz e realizada, que com o tempo eu conseguiria minha independência financeira, conseguiria sair da casa dos meus pais, conseguiria comprar um apartamento, um carro, conseguiria me casar e ter uma família.
De fato consegui alcançar alguns desses sonhos. E percebi que sair de casa, montar um apartamento, mesmo que alugado foi muito bom, aprendi a me virar sozinha em várias coisas, aprendi a lidar com gastos, me sustentar sozinha, afazeres domésticos, ser mais resolutiva, ter menos medo da sociedade, já que até então era minha mãe que resolvia tudo e não me preocupava.
Logo comprei meu primeiro carro, em longas parcelas, e tive orgulho de ver os frutos da minha dedicação ao trabalho. Ainda não consegui comprar um apartamento, mas me casar pretendo em breve.
Como eu disse, todas essas coisas foram marcantes na minha vida, mas não foram a solução de tudo. Quem dera a vida fosse tão fácil assim e a felicidade estivesse nesses fatos. Viver dói. E a cada dia doía mais. Não sabia porque, ou na verdade sabia mas não tinha coragem de reconhecer que era a instabilidade do transtorno bipolar novamente. Não, isso não era possível, por muito tempo não pensei nele e ele não mais existia para mim. Mas ele não me esqueceu, esteve me cutucando o tempo todo, procurando várias formas de me chamar a atenção, de me atingir, e eu continuava fingindo que ele não estava ali.
Já estava há quase um ano no CAPS, tinha um psiquiatra que me ajudava muito, me dava força para seguir na psiquiatria, que eu tinha "jeito", de fato meu desempenho me agradava, conseguia bons resultados (dentro do possível) com meus pacientes. Uma amiga psicóloga me convidou para avaliar alguns pacientes dela em seu consultório, e quando percebi, já estava com clientes particulares e dividindo o consultório com ela. Realmente tive um certo destaque em pouco tempo de atuação (e só consegui perceber isso hoje, relatando os fatos).
O Consultório na rua era cansativo, rodar a cidade atrás de moradores de rua para atender, realizar as consultas sentada na calçada, debaixo do sol, estar no ambiente deles, vê-los fumando crack na nossa frente, bebendo, brigando por um cobertor, assistir de perto o medo e preconceito da sociedade. Ouvir tantas histórias difíceis de vida e entender o motivo de estarem na rua, o motivo de se prostituirem, o desespero do vício da droga, da fissura, saber que por tras de tanta coisa "absurda" aos nossos olhos existem seres humanos, com sentimentos, com dificuldades extremas.
Mas eu gostava, me sentia útil, sentia que fazia alguma diferença, mesmo que pequena na vida daquelas pessoas, que no início nos recebiam receiosos, desconfiados, tentavam ser hostil, nos desafiar, mas com o passar dos dias aprenderam a confiar na gente.
Era gratificante ver o sorriso deles quando avistavam o carro da equipe, a preocupação de conseguirem um pedaço de papelão pra gente sentar sem se sujar. Tive a oportunidade de fazer o pré-natal de algumas delas, pegar seus bebes no colo. Tratei sífilis congênita em recem-nascido, tratei abstinência em gestantes, tratei feridas de agressões físicas, tratei esquizofrenia, depressão, sarna, tuberculose, HIV, infecções de pele imundas, cheias de larvas. Era uma equipe fantástica, topavam de tudo, desde perseguir e segurar um paciente em surto no meio da rua para ser medicado, até levá-los para tomar banho. Apesar da exaustão física, me fazia um bem danado pra alma, fico feliz que a equipe ainda contínua.
Claro, nem tudo é lindo assim, lidar com esse tipo de paciente é perigoso, sofri ameaças, agressões verbais, perseguições. Com o tempo, tudo foi tornando-se extenuante, e as crises vieram. Crises de choro, desânimo, ansiedade, insônia, vontade de desistir de tudo, não tive mais coragem de voltar na minha psiquiatra, comecei a tomar um antidepressivo por indicação daquele meu amigo psiquiatra do CAPS, cheguei na dose máxima para dar conta de tudo, mas não conseguia controlar minhas alterações do humor, passei a implicar com a equipe de trabalho, a perder a paciência com os pacientes que iniciavam uma melhora, iam muito bem e depois abandonavam tudo e voltavam para o vício do alcool e das drogas. Quem sou eu pra criticar isso...rs. quantas vezes senti isso na pele... com eles não seria diferente, não podia ser, porque este é a parte mais difícil da saúde mental, muitas vezes voce consegue melhorar um paciente e estabiliza-lo, mas cedo ou tarde vem as crises, as recaídas, parece maldição.
Não podia mais continuar cuidando da saúde mental dos outros se nem a minha estava indo bem........
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
De volta...
Boa tarde, gente. Depois de muito tempo resolvi voltar a escrever. Peço desculpas pelo sumiço, irei responder os e-mails com calma gradativamente.
Meu último post foi sobre a formatura, irei atualizá-los dos fatos ocorridos desde então. Formei em dezembro/2012 e comecei a trabalhar no SAMU, não durou muito tempo pois não consegui conciliar os horários com outro emprego. Então pensei que deveria passar por uma experiência diferente, fui trabalhar no interior, na verdade interior do fim do mundo. rsrs. Mais de 300km da minha cidade, um lugar muito carente, de difícil acesso, não existe nem linha de ônibus da minha cidade para lá.
Comecei trabalhando com saúde da família em um posto de saúde bem distante (costumo brincar que era a zona rural da zona rural), o carro da prefeitura me buscava todos os dias, gastavamos cerca de 1 hora e 10min numa estrada de terra, em péssimas condições, perigosa, enormes buracos, uma região muito quente, sol forte que nenhum protetor solar dava conta, até parei de usar roupa branca afinal eu chegava no local de trabalho suja, cor de terra. E quando chovia era ainda pior, pois toda aquela terra fofa virava lama.
Enfim, voltando a falar do meu trabalho, eu era obrigada a atender de 25 a 30 pacientes por dia, em um local que não oferecia a menor estrutura, rezava todos os dias para não chegar nenhum paciente grave, que morreria nas minhas mãos sem eu poder fazer nada diante da falta de medicamentos e equipamentos.
A prefeitura oferecia "almoço" já que não dava tempo de retornar a cidade e voltar a tarde. Este almoço era servido em uma casinha simples de uma moradora do local, sendo basicamente arroz, feijão e macarrão, vez ou outra tinha carne, ensopada na gordura que já encontramos insetos como parte do tempero. rsrs. Mas isso não é nada comparado ao cardápio de frango ensopado com a cabeça inteira, olhos e bico na panela e os pés com as unhas sujas de terra cozidas junto com as outras partes da galinha na panela.
Voltando novamente ao assunto, havia ainda as consultas domiciliares, que era necessário subir pedras, passar por matos, atravessar pingela (um tronco de árvore utilizado como ponte de um lado ao outro do riacho) para chegar até a casa de pacientes acamados, debilitados que não tinham condições de ir até o posto de saúde. Não sei por qual o motivo, o índice de transtornos mentais desses lugares era bastante alto, algo que realmente chamava atenção e me interessava cada vez mais.
Terminava o expediente exausta e pensativa quanto as condições precárias de saúde daquela população, mais 1hora e 10min para chegar na cidade era o suficiente para filosofar bastante. Não tinha coisa mais preciosa que chegar e tomar um banho demorado, lavar o cabelo cheio de terra, só de passar o dedo no ouvido saia areia. Aprendi a dar valor a estas pequenas coisas: um banho sossegado, um prato de refeição mesmo que simples mas bem preparado, uma cama confortável. E outras coisas como a tecnologia de um celular, internet. Não havia nada disso alí. Muitas vezes tinha medo de acontecer algo e eu estar incomunicável naquela comunidade no meio da terra, cercada de eucaliptos.
Os dias se passaram e eu senti necessidade de me aperfeiçoar melhor para atender os transtornos mentais daquelas pessoas, decidi iniciar um curso de pós graduação em psiquiatria uma vez por mês na capital. Me encantava cada vez mais o mundo da psiquiatria, que apesar de triste, oferece meios de aliviar a dor, seja através de remédios ou da escuta. Conhecia muito bem o poder de um tratamento bem feito, o quanto isso pode ser decisivo na vida do paciente.
Foi quando então fui chamada para trabalhar novamente na minha cidade, no CAPS e em projeto chamado Consultório na Rua. Fiquei feliz e orgulhosa, ainda nem tinha terminado minha formação na psiquiatria e já estava recebendo propostas para atuar na área.
Minha reação diante disso tudo, meus pensamentos, minhas decisões, serão cenas do próximo capitulo.
Meu último post foi sobre a formatura, irei atualizá-los dos fatos ocorridos desde então. Formei em dezembro/2012 e comecei a trabalhar no SAMU, não durou muito tempo pois não consegui conciliar os horários com outro emprego. Então pensei que deveria passar por uma experiência diferente, fui trabalhar no interior, na verdade interior do fim do mundo. rsrs. Mais de 300km da minha cidade, um lugar muito carente, de difícil acesso, não existe nem linha de ônibus da minha cidade para lá.
Comecei trabalhando com saúde da família em um posto de saúde bem distante (costumo brincar que era a zona rural da zona rural), o carro da prefeitura me buscava todos os dias, gastavamos cerca de 1 hora e 10min numa estrada de terra, em péssimas condições, perigosa, enormes buracos, uma região muito quente, sol forte que nenhum protetor solar dava conta, até parei de usar roupa branca afinal eu chegava no local de trabalho suja, cor de terra. E quando chovia era ainda pior, pois toda aquela terra fofa virava lama.
Enfim, voltando a falar do meu trabalho, eu era obrigada a atender de 25 a 30 pacientes por dia, em um local que não oferecia a menor estrutura, rezava todos os dias para não chegar nenhum paciente grave, que morreria nas minhas mãos sem eu poder fazer nada diante da falta de medicamentos e equipamentos.
A prefeitura oferecia "almoço" já que não dava tempo de retornar a cidade e voltar a tarde. Este almoço era servido em uma casinha simples de uma moradora do local, sendo basicamente arroz, feijão e macarrão, vez ou outra tinha carne, ensopada na gordura que já encontramos insetos como parte do tempero. rsrs. Mas isso não é nada comparado ao cardápio de frango ensopado com a cabeça inteira, olhos e bico na panela e os pés com as unhas sujas de terra cozidas junto com as outras partes da galinha na panela.
Voltando novamente ao assunto, havia ainda as consultas domiciliares, que era necessário subir pedras, passar por matos, atravessar pingela (um tronco de árvore utilizado como ponte de um lado ao outro do riacho) para chegar até a casa de pacientes acamados, debilitados que não tinham condições de ir até o posto de saúde. Não sei por qual o motivo, o índice de transtornos mentais desses lugares era bastante alto, algo que realmente chamava atenção e me interessava cada vez mais.
Terminava o expediente exausta e pensativa quanto as condições precárias de saúde daquela população, mais 1hora e 10min para chegar na cidade era o suficiente para filosofar bastante. Não tinha coisa mais preciosa que chegar e tomar um banho demorado, lavar o cabelo cheio de terra, só de passar o dedo no ouvido saia areia. Aprendi a dar valor a estas pequenas coisas: um banho sossegado, um prato de refeição mesmo que simples mas bem preparado, uma cama confortável. E outras coisas como a tecnologia de um celular, internet. Não havia nada disso alí. Muitas vezes tinha medo de acontecer algo e eu estar incomunicável naquela comunidade no meio da terra, cercada de eucaliptos.
Os dias se passaram e eu senti necessidade de me aperfeiçoar melhor para atender os transtornos mentais daquelas pessoas, decidi iniciar um curso de pós graduação em psiquiatria uma vez por mês na capital. Me encantava cada vez mais o mundo da psiquiatria, que apesar de triste, oferece meios de aliviar a dor, seja através de remédios ou da escuta. Conhecia muito bem o poder de um tratamento bem feito, o quanto isso pode ser decisivo na vida do paciente.
Foi quando então fui chamada para trabalhar novamente na minha cidade, no CAPS e em projeto chamado Consultório na Rua. Fiquei feliz e orgulhosa, ainda nem tinha terminado minha formação na psiquiatria e já estava recebendo propostas para atuar na área.
Minha reação diante disso tudo, meus pensamentos, minhas decisões, serão cenas do próximo capitulo.
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