Vou iniciar este texto respondendo as perguntas que deixei em aberto na última postagem...
Desde a formatura estava sem tomar nenhum medicamento. A gente tem mania de achar que os problemas são resolvidos com as 'conquistas terrenas'. Por muitos anos pensava dessa maneira: que eu seria feliz depois que eu conseguisse chegar na formatura, que eu conseguiria cuidar das pessoas necessitadas, que esta profissão me faria muito feliz e realizada, que com o tempo eu conseguiria minha independência financeira, conseguiria sair da casa dos meus pais, conseguiria comprar um apartamento, um carro, conseguiria me casar e ter uma família.
De fato consegui alcançar alguns desses sonhos. E percebi que sair de casa, montar um apartamento, mesmo que alugado foi muito bom, aprendi a me virar sozinha em várias coisas, aprendi a lidar com gastos, me sustentar sozinha, afazeres domésticos, ser mais resolutiva, ter menos medo da sociedade, já que até então era minha mãe que resolvia tudo e não me preocupava.
Logo comprei meu primeiro carro, em longas parcelas, e tive orgulho de ver os frutos da minha dedicação ao trabalho. Ainda não consegui comprar um apartamento, mas me casar pretendo em breve.
Como eu disse, todas essas coisas foram marcantes na minha vida, mas não foram a solução de tudo. Quem dera a vida fosse tão fácil assim e a felicidade estivesse nesses fatos. Viver dói. E a cada dia doía mais. Não sabia porque, ou na verdade sabia mas não tinha coragem de reconhecer que era a instabilidade do transtorno bipolar novamente. Não, isso não era possível, por muito tempo não pensei nele e ele não mais existia para mim. Mas ele não me esqueceu, esteve me cutucando o tempo todo, procurando várias formas de me chamar a atenção, de me atingir, e eu continuava fingindo que ele não estava ali.
Já estava há quase um ano no CAPS, tinha um psiquiatra que me ajudava muito, me dava força para seguir na psiquiatria, que eu tinha "jeito", de fato meu desempenho me agradava, conseguia bons resultados (dentro do possível) com meus pacientes. Uma amiga psicóloga me convidou para avaliar alguns pacientes dela em seu consultório, e quando percebi, já estava com clientes particulares e dividindo o consultório com ela. Realmente tive um certo destaque em pouco tempo de atuação (e só consegui perceber isso hoje, relatando os fatos).
O Consultório na rua era cansativo, rodar a cidade atrás de moradores de rua para atender, realizar as consultas sentada na calçada, debaixo do sol, estar no ambiente deles, vê-los fumando crack na nossa frente, bebendo, brigando por um cobertor, assistir de perto o medo e preconceito da sociedade. Ouvir tantas histórias difíceis de vida e entender o motivo de estarem na rua, o motivo de se prostituirem, o desespero do vício da droga, da fissura, saber que por tras de tanta coisa "absurda" aos nossos olhos existem seres humanos, com sentimentos, com dificuldades extremas.
Mas eu gostava, me sentia útil, sentia que fazia alguma diferença, mesmo que pequena na vida daquelas pessoas, que no início nos recebiam receiosos, desconfiados, tentavam ser hostil, nos desafiar, mas com o passar dos dias aprenderam a confiar na gente.
Era gratificante ver o sorriso deles quando avistavam o carro da equipe, a preocupação de conseguirem um pedaço de papelão pra gente sentar sem se sujar. Tive a oportunidade de fazer o pré-natal de algumas delas, pegar seus bebes no colo. Tratei sífilis congênita em recem-nascido, tratei abstinência em gestantes, tratei feridas de agressões físicas, tratei esquizofrenia, depressão, sarna, tuberculose, HIV, infecções de pele imundas, cheias de larvas. Era uma equipe fantástica, topavam de tudo, desde perseguir e segurar um paciente em surto no meio da rua para ser medicado, até levá-los para tomar banho. Apesar da exaustão física, me fazia um bem danado pra alma, fico feliz que a equipe ainda contínua.
Claro, nem tudo é lindo assim, lidar com esse tipo de paciente é perigoso, sofri ameaças, agressões verbais, perseguições. Com o tempo, tudo foi tornando-se extenuante, e as crises vieram. Crises de choro, desânimo, ansiedade, insônia, vontade de desistir de tudo, não tive mais coragem de voltar na minha psiquiatra, comecei a tomar um antidepressivo por indicação daquele meu amigo psiquiatra do CAPS, cheguei na dose máxima para dar conta de tudo, mas não conseguia controlar minhas alterações do humor, passei a implicar com a equipe de trabalho, a perder a paciência com os pacientes que iniciavam uma melhora, iam muito bem e depois abandonavam tudo e voltavam para o vício do alcool e das drogas. Quem sou eu pra criticar isso...rs. quantas vezes senti isso na pele... com eles não seria diferente, não podia ser, porque este é a parte mais difícil da saúde mental, muitas vezes voce consegue melhorar um paciente e estabiliza-lo, mas cedo ou tarde vem as crises, as recaídas, parece maldição.
Não podia mais continuar cuidando da saúde mental dos outros se nem a minha estava indo bem........
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