sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Uma doente mental querendo cuidar de outros doentes mentais

          Com o tempo, comecei a sentir falta do resto da medicina... psiquiatria é uma coisa muito a parte e específica, meio isolada, mesmo que não deveria ser. Já não levava nem estetoscópio para os atendimentos, e clínica médica é uma coisa que se esquece muito rápido se não estiver sempre em contato. Resolvi então começar a dar plantões no pronto-socorro de um dos grandes hospitais da cidade, era uma forma de me manter estudando, manter o mínimo de conhecimento geral que um médico tem quando sai da faculdade. Acho que meu caminho foi ao contrário, poucos saem restringindo seus conhecimentos a uma área específica, ainda mais em psiquiatria (que muitos nem consideram medicina). O comum é o recém formado continuar mantendo sua atuação e seus estudos na medicina geral, até porque para serem aprovados na prova de residência é necessário esse conteúdo abrangente, as questões não são específicas da área que você pretende seguir.
        Não sei se tudo isso que estou dizendo era o que eu realmente pensava ou se era uma forma de arrumar uma justificativa para mim mesma e para aqueles que estavam próximos de mim, porque toda vez que falava que eu estava desanimada com a pós-graduação de psiquiatria, que estava querendo desistir, todos a minha volta se desesperavam, talvez reflexo de tudo que passaram comigo no passado. Mesmo não morando mais com eles, minha família estava percebendo que as coisas não iam muito bem. Minha mãe viajou para visitar igrejas famosas por "milagres", fez rituais para a minha "cura" e era desesperador para ela sentir que eu estava ficando diferente novamente.
      Não queriam deixar que eu largasse tudo, e começou novamente o inferno. E mesmo que eu falasse que eu não estava mais animada com aquilo, que minhas expectativas quanto a pós-graduação não estavam sendo satisfatórias, que o curso estava fraco, que mesmo depois que eu me formasse não seria psiquiatra, que a única vantagem do curso seria pontos para quando eu tentasse a prova de título, e que mesmo assim a associação brasileira de psiquiatria só permite tentar a prova com 5 anos de formado. Tentei argumentar que fazer uma residência médica é essencial para uma boa formação, que faz toda diferença na carreira, que eu ia tentar estudar, voltar pro medcurso pra começar a tentar as provas ano que vem. Era algo muito difícil, a concorrência é maior do que a do vestibular e as provas não são específicas.
    O medo que eles tinham de eu estar tomando uma decisão precipitada era maior do que qualquer argumento, falavam pra eu terminar primeiro a pós-graduação pra depois não correr o risco de arrepender. Eu e minha mania de começar as coisas e não terminar, dizem que é característica do transtorno bipolar, já eu, acho que é covardia mesmo e medo da vida.
     Mas o destino brinca com a gente... abriram inesperadamente inscrições para o processo seletivo unificado de MG de residência médica de vagas remanescentes e a data da prova iria coincidir com a data que eu estaria em BH, na pós graduação. Angustiada e transtornada resolvi me inscrever, mas também não sabia o que queria tentar... Infectologia? Clinica médica? Cirurgia? Anestesiologia? quanta angústia. acabei optando por clínica médica porque é pré-requisito para muitas outras especialidades que também me interesso como cardiologia, pneumologia, oncologia, geriatria, medicina intensiva... etc.. e optei também por Infectologia por ser bem parecido com clínica, ter muita relação. Enfim, quando cheguei no local da prova tive uma crise de pânico, fiquei gelada, suando, com sensação de que ia desmaiar ou morrer, queria sair correndo dalí. prova difícil, saí de lá me sentindo idiota por inventar tanta coisa na minha cabeça. Querer tanto e nada ao mesmo tempo. Tudo isso não pode ser consequencia do transtorno bipolar, não posso colocar a culpa de tudo nele. Tenho que admitir minhas covardias e limitações.
      O resultado me surpreendeu muito, fiquei na lista de espera de 3 lugares, mas bem colocada. Fui chamada para o hospital de infectologia, quanta alegria! A felicidade e orgulho do meu pai me emocionaram, nunca tinha visto uma reação dessa vindo dele. Minha mãe comemorando como se fosse um vestibular. O hospital deu o prazo de 48h para me matricular. No mesmo dia minha mãe pegou o onibus comigo, era uma cidade desconhecida, distante, mas aparentemente bacana, com boas opções de lazer, seria interessante morar alí. A primeira impressão foi boa. No dia seguinte fui cedo ao hospital, o chefe queria que eu começasse a trabalhar no próximo dia de manhã, achei uma loucura, não teria como, não tinha levado nada pra ficar. Não me senti bem acolhida pelos R2 (residentes do 2º ano), já foram me passando escala de plantões, aulas, atendimentos, quanto desespero para um dia só. Minha mãe estava me esperando na porta do hospital e quando viu minha cara começou a acender um cigarro atrás do outro. Eu não conseguia falar uma palavra sequer. Ela também não. Fomos em silêncio até o hotel. Minha cabeça estava a mil, meu coração dizia que eu não deveria ficar, ao mesmo tempo a razão dizia que eu não poderia perder essa chance. 
       Conversei pouco com minha mãe, não consegui falar muito, só disse que não sabia se eu ia dar conta de ficar alí. Minha mãe fez uma cara de decepção que cortou meu coração, falou que eu não podia desistir, que Deus não me daria outra chance dessa, e ela tinha razão, ser aprovada numa residencia médica, tão difícil, sem estudar era quase mesmo que um milagre, provavelmente isso não aconteceria novamente. Fui tomar um banho, chorei muito, me senti péssima, sentia que estava perdendo o controle da vida, estava perdida, sem rumo, sem saída, tive vontade de correr, me cortar, de conseguir uma forma de aliviar tanta angústia, de acalmar meus pensamentos. Saí do banho e conversei com minha mãe, eu era a 2ª colocada da lista de espera em outro hospital, em outra cidade, mais próxima da minha, cidade que eu já conhecia e para a especialidade de clínica médica. O prazo para convocação da lista de espera terminava no dia seguinte, depois de tanto pensar, decidi que eu iria aguardar até o próximo dia, se eu fosse chamada para esta outra cidade eu iria. Caso contrário, eu iria cancelar a matricula dali e desistir de cursar residência por enquanto. 
      Minha mãe não respondeu, foi até o telefone, pediu autorização do hotel para uma chamada interurbana, disse que tinha sido intuída a ligar para o hospital em que eu estava em 2ª colocação. Morri de vergonha, se eu tivesse que ser convocada, entrariam em contato, não o contrário, ligar pra lá iria parecer praticamente pedir a vaga. Para minha surpresa, a pessoa que atendeu o telefone disse que estava tentando entrar em contato comigo há mais de 24h, para me chamar. ligava para o telefone fixo da minha casa e ninguém atendia e eu não havia deixado contato de celular, que ela já estava desistindo e já ia ligar para o próximo da lista. 
     É, parece mesmo ter sido Deus, ter sido coisa do destino, não existem tantas coincidencias e sortes assim, eu não podia deixar a depressão se fortalecer, a vida parecia dessa vez estar a meu favor. Agora teria que pegar o onibus de volta depressa para chegar até a outra cidade no dia seguinte a tempo de me matricular. E dessa vez, independente da minha impressão do hospital, independente dos meus pensamentos descontrolados eu teria que ficar. Foi a promessa que eu fiz......

Nenhum comentário:

Postar um comentário