Boa tarde, gente. Depois de muito tempo resolvi voltar a escrever. Peço desculpas pelo sumiço, irei responder os e-mails com calma gradativamente.
Meu último post foi sobre a formatura, irei atualizá-los dos fatos ocorridos desde então. Formei em dezembro/2012 e comecei a trabalhar no SAMU, não durou muito tempo pois não consegui conciliar os horários com outro emprego. Então pensei que deveria passar por uma experiência diferente, fui trabalhar no interior, na verdade interior do fim do mundo. rsrs. Mais de 300km da minha cidade, um lugar muito carente, de difícil acesso, não existe nem linha de ônibus da minha cidade para lá.
Comecei trabalhando com saúde da família em um posto de saúde bem distante (costumo brincar que era a zona rural da zona rural), o carro da prefeitura me buscava todos os dias, gastavamos cerca de 1 hora e 10min numa estrada de terra, em péssimas condições, perigosa, enormes buracos, uma região muito quente, sol forte que nenhum protetor solar dava conta, até parei de usar roupa branca afinal eu chegava no local de trabalho suja, cor de terra. E quando chovia era ainda pior, pois toda aquela terra fofa virava lama.
Enfim, voltando a falar do meu trabalho, eu era obrigada a atender de 25 a 30 pacientes por dia, em um local que não oferecia a menor estrutura, rezava todos os dias para não chegar nenhum paciente grave, que morreria nas minhas mãos sem eu poder fazer nada diante da falta de medicamentos e equipamentos.
A prefeitura oferecia "almoço" já que não dava tempo de retornar a cidade e voltar a tarde. Este almoço era servido em uma casinha simples de uma moradora do local, sendo basicamente arroz, feijão e macarrão, vez ou outra tinha carne, ensopada na gordura que já encontramos insetos como parte do tempero. rsrs. Mas isso não é nada comparado ao cardápio de frango ensopado com a cabeça inteira, olhos e bico na panela e os pés com as unhas sujas de terra cozidas junto com as outras partes da galinha na panela.
Voltando novamente ao assunto, havia ainda as consultas domiciliares, que era necessário subir pedras, passar por matos, atravessar pingela (um tronco de árvore utilizado como ponte de um lado ao outro do riacho) para chegar até a casa de pacientes acamados, debilitados que não tinham condições de ir até o posto de saúde. Não sei por qual o motivo, o índice de transtornos mentais desses lugares era bastante alto, algo que realmente chamava atenção e me interessava cada vez mais.
Terminava o expediente exausta e pensativa quanto as condições precárias de saúde daquela população, mais 1hora e 10min para chegar na cidade era o suficiente para filosofar bastante. Não tinha coisa mais preciosa que chegar e tomar um banho demorado, lavar o cabelo cheio de terra, só de passar o dedo no ouvido saia areia. Aprendi a dar valor a estas pequenas coisas: um banho sossegado, um prato de refeição mesmo que simples mas bem preparado, uma cama confortável. E outras coisas como a tecnologia de um celular, internet. Não havia nada disso alí. Muitas vezes tinha medo de acontecer algo e eu estar incomunicável naquela comunidade no meio da terra, cercada de eucaliptos.
Os dias se passaram e eu senti necessidade de me aperfeiçoar melhor para atender os transtornos mentais daquelas pessoas, decidi iniciar um curso de pós graduação em psiquiatria uma vez por mês na capital. Me encantava cada vez mais o mundo da psiquiatria, que apesar de triste, oferece meios de aliviar a dor, seja através de remédios ou da escuta. Conhecia muito bem o poder de um tratamento bem feito, o quanto isso pode ser decisivo na vida do paciente.
Foi quando então fui chamada para trabalhar novamente na minha cidade, no CAPS e em projeto chamado Consultório na Rua. Fiquei feliz e orgulhosa, ainda nem tinha terminado minha formação na psiquiatria e já estava recebendo propostas para atuar na área.
Minha reação diante disso tudo, meus pensamentos, minhas decisões, serão cenas do próximo capitulo.
Seu blog me inspirou a escrever.... Amei escreva sempre
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