Eu estava indo muito bem, consegui uma certa estabilidade com os remédios, com a terapia e também com o espiritismo.
Aos poucos a psiquiatra foi reduzindo minha medicação e incrivelmente eu me mantive bem.
Passei praticamente um ano tomando apenas meio comprimido de lítio e sem a olamzapina. Consegui perder um pouco de peso, não me sentia mais sonolenta, me sentia uma pessoa ''normal'' novamente. Conquistei grandes amizades na faculdade e já estava mais adaptada ao método de ensino.
Mas parece que realmente a vida adora nos testar... Quando tudo parece dar certo, começa a dar errado.
Comecei a ter sensações estranhas, parecia estar acompanhada, parecia que eu estava longe, distante do meu corpo...
Me olhava no espelho e não me reconhecia, mesmo tendo a certeza de que era eu quem estava ali.
Minhas percepções pareciam estar 1.000 aumentada. A luz normal parecia muito intensa, como um holofote. Os sons por mais discretos que fossem me incomodavam muito, como se estivessem dentro do meu tímpano.
As cores eram muito mais intensas também, e tão atrativas que se eu fixasse muito o olhar, elas pareciam se movimentar.
Agora eu tinha certeza de estar enlouquecendo de vez.... Sem falar na inquietação, movimentação excessiva, ficava andando pela casa em circulos e falando sem parar, apenas por falar, emendando um assunto no outro sem ninguém entender nada.
Sem resposta com o aumento do lítio, a psiquiatra resolveu tentar agora um antipsicótico diferente, que teoricamente causava menor sedação e menor ganho de peso, e também pq a olanzapina era muito cara na época então era necessário preencher vários formulários para conseguir pegar gratuitamente pela secretaria de saúde.
Me receitou a Ziprazidona 40mg.. Que não fez efeito nenhum em mim nem de longe... e eu precisava fazer aquilo parar, precisava de concentraçao pra estudar, precisava dormir.
Ela então foi aumentando gradualmente a dosagem, até a máxima permitida, e sem resultado optou por trocar pela risperidona.
No 4º dia de uso, os sintomas estavam cada vez mais insuportáveis e tive uma crise terrível que eu só conseguia ficar deitada na cama, quarto totalmente escuro e silencioso e mesmo assim tinha uma dor de cabeça terrível, visão turva e dupla, sensação de desmaio, náuseas e a sensação de estar saindo do meu corpo, de estar enlouquecendo. No período da noite isso tudo piorava mais ainda.
Uma amiga do centro espírita e chefe do departamento mediunico me buscava em casa todos os dias para receber passes e água fluidificada.
Até que a coisa perdeu o controle e eu não conseguia mais sair do quarto, e tinha agora espasmos involuntários em uma das pernas. Minha mãe preocupada telefonou pro meu tio neurologista/neurocirurgião que sugeriu que eu fizesse uma ressonância magnética do cérebro com urgência. O exame veio completamente normal. Fui arrastada, carregada até a psiquiatra, que solicitou vários exames de sangue em busca de alterações ou toxicidade das medicações, mas estava tudo normal.
Foi quando ela resolveu tentar mais uma droga, desta vez a quetiapina.
Eu já poderia ter desistido de tudo há muito tempo, mas ainda bem que insisti, pois com a quetiapina consegui recuperar aos poucos minha estabilidade novamente.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
quinta-feira, 28 de junho de 2012
O Espiritismo...
Vou começar a abordar um assunto polêmico neste e nos próximos textos...
Tentarei falar sobre como cheguei ao espiritismo.
Quando
vc resolve buscar ajuda, uma das coisas que vc pensa é que precisa de
Deus no seu coração e vai na igreja.
Como já conheço bem o catolicismo, sou batizada, fiz primeira comunhão,
já sabia que isto não ia durar muito. Por curiosa que sempre fui, já
tinha lido o Livro dos Espíritos que minha mãe tinha em casa. Me pareceu
bem interessante e daí resolvi procurar uma casa espírita kardecista
que fosse bem conceituada aqui na minha cidade.
Chegando lá, fui extremamente bem recebida, ouvi as palavras do palestrante e me emocionei, aquilo
que ele falou era pra mim, Deus tocou no meu coração e eu caí no chão
em lágrimas.
Agora
eu tinha aceitado Jesus e era uma crente exemplar daquela que faz
testemunho de como Jesus e o espiritismo mudou minhavida.
Parei de beber, de sair, mudei minha vida... Passei a estudar a doutrina a fundo....
Participei
de grupos de estudos, me envolvi profundamente, quando percebi até
aulas de evangelização para as crianças eu estava dando..
Só
que com o tempo eu tenho essa mania de começar a ver erro em tudo,
passei a achar que o pessoal do centro espírita estava distante, que
deveria ter a oportunidade de maior acolhimento lá dentro, comecei a
implicar, achar que o frequentador do lado estava falando baboseira
demais e sendo hipócrita ao extremo.
Então vc pára de ir no centro e começa a falar pra todo mundo que é ateu. [queridos leitores, acho que já deu pra vcs perceberem minhas oscilações de um extremo a outro... de empolgação ao desânimo]
Quando chega em casa olha pro céu e questiona porque Deus fez aquilo
com vc, cai em lágrimas, percebe que a sua vida não tem sentido, não tem
razão , não tem porque passar por tudo isso, que esse mundo não foi feito
pra vc. E só encontra a resposta para todas essas perguntas no espiritismo, então volta acanhada em busca de ajuda..
Portanto
hj eu prefiro acreditar sim no espiritismo, pois é a única coisa que
'explica' e justifica as dores do mundo e da alma. Pena que a doutrina
anda tão separada da psiquiatria!
Estaria
ali a explicação das coisas que eu sempre quis tanto? Meus pais falam
sempre que desde criança eu era muito curiosa, questionadora, e a
pergunta que eu mais gostava de fazer era: Por que? Eram tantos porquês
que eles nunca conseguiam me convencer.
Alí eu estava tendo as respostas para os meus porquês...
Será
que tudo isso que está acontecendo na minha vida é por influenciação
espiritual? Teria como fazer um tratamento de desobcessão? Seria eu
médium?
Você é diferente...
No final do primeiro semestre, módulo de bioquímica, a coordenadora e tutora era bastante arrogante, por ser especialista ela queria ser superior. Infelizmente no curso de medicina tem muito dessas coisas durante todos os 6 anos.
Eu estava com dificuldades em me adaptar a este método, estudava muito, mas ao chegar no dia de discutir em grupo eu ficava travada, não conseguia falar em público, sempre fui bastante tímida. Gaguejava, suava, coração acelerava e minha participação era ruim. Eram 30 pontos distribuídos nisso e 70 da prova. Eu me saía bem nas provas, e era isso que me garantia.
Num dia de tutoria com essa bioquímica, eu não estava bem, não participei bem, tinha um colega formado em biologia, professor de um cursinho de química que naturalmente se destacava e dava verdadeiras aulas brilhantes no grupo. Não me sentia segura nem a vontade para falar. Enfim, no final da discussão deste dia, a tutora avaliou o grupo de forma em geral, obviamente elogiou muito o colega biólogo e então começou a falar sobre mim: "- Vc deveria repensar sobre o curso que escolheu... vc não percebe que é diferente dos colegas? O que vc está fazendo aqui? Melhor nem contínuar."
O que aquela mulher estava falando? É claro que me sinto diferente, não precisa ela ficar anunciando!!
Peguei minha coisas, e ainda no campus da faculdade quando eu estava indo embora senti as lágrimas descerem pelo rosto. Será que eu tinha sonhado alto demais? Será que eu estava querendo demais? Dar um passo maior que a perna? Ela tinha razão.. eu era diferente... era estranha.. doente.. o que eu estava fazendo alí?
Uma colega encontrou comigo e me vendo naquele estado saiu revoltada com o que eu falei, procurou os outros colegas que presenciaram aquela cena como se não acreditasse e precisasse confirmar. Todos confirmaram e estavam bastante chateados com a situação que passei. Foi legal perceber que mesmo em tão pouco tempo, algumas pessoas já gostavam de mim.
Quando minha mãe soube, foi até a faculdade se encontrou com os colegas e juntos na coordenação do curso exigiram que tomassem alguma providência. Foi quando descobriram que ela já havia perdido o emprego em outras faculdades por maltrato a alunos.
A coordenação então pediu que ela viesse até minha casa me pedir desculpas. Minha mãe contou sobre o tratamento que eu estava fazendo e ela disse que se soubesse que eu tinha depressão não teria me tratado daquele jeito. Eu não queria ser tratada de forma diferente, não queria tratamento especial de ninguém. Eu já me sentia diferente demais diante das outras pessoas e eu só queria ser uma pessoa ''normal''.
O coordenador exigiu que ela se desculpasse em público também, diante dos colegas que estavam presentes naquele dia.
Tive notícias de que ela repetiu o mesmo ato com um aluno numa outra turma e a mãe dele fez uma denúncia, então a faculdade decidiu demití-la.
Eu estava cansando da vida de novo...........
Eu estava com dificuldades em me adaptar a este método, estudava muito, mas ao chegar no dia de discutir em grupo eu ficava travada, não conseguia falar em público, sempre fui bastante tímida. Gaguejava, suava, coração acelerava e minha participação era ruim. Eram 30 pontos distribuídos nisso e 70 da prova. Eu me saía bem nas provas, e era isso que me garantia.
Num dia de tutoria com essa bioquímica, eu não estava bem, não participei bem, tinha um colega formado em biologia, professor de um cursinho de química que naturalmente se destacava e dava verdadeiras aulas brilhantes no grupo. Não me sentia segura nem a vontade para falar. Enfim, no final da discussão deste dia, a tutora avaliou o grupo de forma em geral, obviamente elogiou muito o colega biólogo e então começou a falar sobre mim: "- Vc deveria repensar sobre o curso que escolheu... vc não percebe que é diferente dos colegas? O que vc está fazendo aqui? Melhor nem contínuar."
O que aquela mulher estava falando? É claro que me sinto diferente, não precisa ela ficar anunciando!!
Peguei minha coisas, e ainda no campus da faculdade quando eu estava indo embora senti as lágrimas descerem pelo rosto. Será que eu tinha sonhado alto demais? Será que eu estava querendo demais? Dar um passo maior que a perna? Ela tinha razão.. eu era diferente... era estranha.. doente.. o que eu estava fazendo alí?
Uma colega encontrou comigo e me vendo naquele estado saiu revoltada com o que eu falei, procurou os outros colegas que presenciaram aquela cena como se não acreditasse e precisasse confirmar. Todos confirmaram e estavam bastante chateados com a situação que passei. Foi legal perceber que mesmo em tão pouco tempo, algumas pessoas já gostavam de mim.
Quando minha mãe soube, foi até a faculdade se encontrou com os colegas e juntos na coordenação do curso exigiram que tomassem alguma providência. Foi quando descobriram que ela já havia perdido o emprego em outras faculdades por maltrato a alunos.
A coordenação então pediu que ela viesse até minha casa me pedir desculpas. Minha mãe contou sobre o tratamento que eu estava fazendo e ela disse que se soubesse que eu tinha depressão não teria me tratado daquele jeito. Eu não queria ser tratada de forma diferente, não queria tratamento especial de ninguém. Eu já me sentia diferente demais diante das outras pessoas e eu só queria ser uma pessoa ''normal''.
O coordenador exigiu que ela se desculpasse em público também, diante dos colegas que estavam presentes naquele dia.
Tive notícias de que ela repetiu o mesmo ato com um aluno numa outra turma e a mãe dele fez uma denúncia, então a faculdade decidiu demití-la.
Eu estava cansando da vida de novo...........
quarta-feira, 27 de junho de 2012
O vestibular
Eu estava verdadeiramente empolgada com os estudos e então meus pais resolveram me apoiar.
Meu pai disse que ia manter minha matrícula trancada na arquitetura durante um ano, e este seria o prazo que ele daria pra eu passar em medicina, caso contrário eu voltaria mesmo que a força pra arquitetura.
Aceitei a proposta... adorava desafios.
Estudei muito, me matriculei num cursinho, tinha aulas durante o dia, e a noite eu estudava sozinha até as 3h da manhã. Era uma nova rotina pra mim que sempre tive o hábito de dormir cedo, meu rendimento a noite era péssimo. Mas desafiava o sono... tomava banhos no meio da noite, café. Eu não podia perder tempo!!
Quando o edital da prova foi divulgado eu me desanimei bastante... a prova não era de matérias específicas apenas.. e além disso teriam questões abertas também.
Nunca tive grande afinidade com os números e não imaginava me deparar logo agora com eles.
Resolvi então contratar uma professora particular de física e matemática pra me ajudar. Eu estava realmente disposta a dar o meu melhor.
Nesta mesma época eu procurei também um endocrinologista que me passou uma dieta, eu estava começando a perder peso e isso me deixava feliz, aumentava também minha disposição.
Fiz a prova e consegui ser aprovada. Ali estava a confirmação pra mim e para todos que eu era capaz de tudo que eu quisesse. Meu pai se encheu de orgulho por ter um dos filhos seguindo sua carreira. Minha mãe ainda não acreditava, ligou para os amigos, fez um churrasco em comemoração.
Senti o quanto meus irmãos torciam por mim e queriam o meu bem.
O meu ano do curso de arquitetura não foi atoa, não foi jogado fora. Foi necessário para o meu amadurecimento, necessário pra que eu percebesse que não era aquilo mesmo que queria pra minha vida e que eu tinha que juntar coragem pra tentar o curso de medicina.
Além disso, serviu pro meu irmão mais novo, que se interessou vendo meus trabalhos e decidiu prestar o vestibular pra arquitetura. Era legal sentir essa admiração.
O curso de medicina na minha faculdade utilizava já esta nova metodologia de ensino, o PBL (Problem-based learning - Aprendizado baseado em problemas). Acredito ser um método bastante cruel. Imagine aprender medicina de forma auto-didata. Imagine vc acostumado sua vida inteira com aulas, com um professor explicando a matéria e de repente vc tem que abrir um daqueles livros gigantes e aprender medicina sozinho.
Foi desesperador a primeira vez que fiz isso, lembro como se fosse hoje eu com aquele livro enorme e minha cara apavorada tentando ler aquelas palavras difíceis dos termos médicos sem ter a mínima noção do que eram.
Estudávamos em casa determinado assunto e nos reuníamos em grupos de 6 a 7 colegas e um professor. Essas reuniões chamavam-se tutorias. Alí deveria acontecer um debate sobre a matéria estudada, levantando discussões que fossem tirar nossas dúvidas e sedimentar o conhecimento.
Muito bonito e interessante a teoria do PBL, não é mesmo?
Mas não era bem assim na prática...
Os dias de tutorias viraram um tormento. Era uma disputa enorme entre os alunos, um queria se sobressair mais do que o outro, afinal de contas estavamos sob constante observação e avaliação pelo tutor. E após o debate, tinha sempre uma avaliação. Um aluno tinha que avaliar o outro, falar como foi o desempenho dele, se ele estudou, se participou bem. Era um momento de críticas construtivas mas no lugar disso o que acontecia na verdade eram críticas pessoais, ofensas.
Agora eu teria que lidar com uma coisa a mais: a timidez, o medo de falar e as críticas.
Meu pai disse que ia manter minha matrícula trancada na arquitetura durante um ano, e este seria o prazo que ele daria pra eu passar em medicina, caso contrário eu voltaria mesmo que a força pra arquitetura.
Aceitei a proposta... adorava desafios.
Estudei muito, me matriculei num cursinho, tinha aulas durante o dia, e a noite eu estudava sozinha até as 3h da manhã. Era uma nova rotina pra mim que sempre tive o hábito de dormir cedo, meu rendimento a noite era péssimo. Mas desafiava o sono... tomava banhos no meio da noite, café. Eu não podia perder tempo!!
Quando o edital da prova foi divulgado eu me desanimei bastante... a prova não era de matérias específicas apenas.. e além disso teriam questões abertas também.
Nunca tive grande afinidade com os números e não imaginava me deparar logo agora com eles.
Resolvi então contratar uma professora particular de física e matemática pra me ajudar. Eu estava realmente disposta a dar o meu melhor.
Nesta mesma época eu procurei também um endocrinologista que me passou uma dieta, eu estava começando a perder peso e isso me deixava feliz, aumentava também minha disposição.
Fiz a prova e consegui ser aprovada. Ali estava a confirmação pra mim e para todos que eu era capaz de tudo que eu quisesse. Meu pai se encheu de orgulho por ter um dos filhos seguindo sua carreira. Minha mãe ainda não acreditava, ligou para os amigos, fez um churrasco em comemoração.
Senti o quanto meus irmãos torciam por mim e queriam o meu bem.
O meu ano do curso de arquitetura não foi atoa, não foi jogado fora. Foi necessário para o meu amadurecimento, necessário pra que eu percebesse que não era aquilo mesmo que queria pra minha vida e que eu tinha que juntar coragem pra tentar o curso de medicina.
Além disso, serviu pro meu irmão mais novo, que se interessou vendo meus trabalhos e decidiu prestar o vestibular pra arquitetura. Era legal sentir essa admiração.
O curso de medicina na minha faculdade utilizava já esta nova metodologia de ensino, o PBL (Problem-based learning - Aprendizado baseado em problemas). Acredito ser um método bastante cruel. Imagine aprender medicina de forma auto-didata. Imagine vc acostumado sua vida inteira com aulas, com um professor explicando a matéria e de repente vc tem que abrir um daqueles livros gigantes e aprender medicina sozinho.
Foi desesperador a primeira vez que fiz isso, lembro como se fosse hoje eu com aquele livro enorme e minha cara apavorada tentando ler aquelas palavras difíceis dos termos médicos sem ter a mínima noção do que eram.
Estudávamos em casa determinado assunto e nos reuníamos em grupos de 6 a 7 colegas e um professor. Essas reuniões chamavam-se tutorias. Alí deveria acontecer um debate sobre a matéria estudada, levantando discussões que fossem tirar nossas dúvidas e sedimentar o conhecimento.
Muito bonito e interessante a teoria do PBL, não é mesmo?
Mas não era bem assim na prática...
Os dias de tutorias viraram um tormento. Era uma disputa enorme entre os alunos, um queria se sobressair mais do que o outro, afinal de contas estavamos sob constante observação e avaliação pelo tutor. E após o debate, tinha sempre uma avaliação. Um aluno tinha que avaliar o outro, falar como foi o desempenho dele, se ele estudou, se participou bem. Era um momento de críticas construtivas mas no lugar disso o que acontecia na verdade eram críticas pessoais, ofensas.
Agora eu teria que lidar com uma coisa a mais: a timidez, o medo de falar e as críticas.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Triste mesmo é não sentir nada...
Nunca imaginei me sentir assim... tão sem vida, tão sem controle, tão sem o que fazer!
Perdi meus amigos, perdi a faculdade, perdi minha fé em Deus, estava perdendo minha família também, aos poucos eu sentia que até mesmo eles estavam deixando de acreditar.
Ganhei solidão, ganhei culpa, ganhei peso... desde que comecei com as medicações engordei 14kg.
O que era mais estranho era que mesmo diante de tudo isso, não me importava. Devo dizer que isso era a pior parte de tudo. Seria também um efeito colateral daqueles remédios? Acho que até preferia a tristeza, pq vou confessar que triste mesmo é não sentir nada!! Não se sentir viva mas sim um robô em modo automático.
Aquela psiquiatra abençoada entendeu. Parecia ser a única criatura que ainda acreditava que poderia ser diferente!
Resolveu diminuir a dose do antipsicótico, de forma lenta e gradual.. Eu adorava a forma que ela terminava as sessões de psicanálise dizendo que se ela não acreditasse no trabalho dela, ela não estaria alí.
Os dias foram se passando, as semanas, os meses e eu parecia estar mais adaptada aos efeitos de sonolência e com a dose menor eu estava menos robótica, começava a ter sentimentos, emoções e aquilo me fazia me sentir mais humana. Me lembrava de relance da jovem tão querida e requisitada que eu era, determinada, cheia de sentimentos e idealizações. E essas lembranças me faziam querer mudar!!!
Resolvi utilizar todos os recurssos a meu favor, fazia terapia agora 2 a 3 vezes por semana e me desafiei a falar mais, falar tudo, despejar tudo alí! E eu agora entendia o porque da tão famosa frase "falar é terapêutico, as palavras curam".
Antes os dias de terapia eram um tormento para mim, me sentia observada, analisada, e os 40 minutos pareciam 40 horas intermináveis. Agora eu me sentia a vontade, as vezes chegava a falar até por uma hora. E de tanto falar eu fui permitindo aquela senhora me conhecer melhor, e eu também me re-conhecer novamente junto a ela. Entender minhas atitudes, minhas reações.
Os dias de ir naquele consultório foram se tornando empolgantes, eu ficava feliz desde a véspera... Gostava de chegar uns 20 minutos antes do meu horário só pra sentar perto da simpática secretária que agora já me recebia com um abraço cativante. Me sentia acolhida e até mesmo querida alí, mesmo com todo o distanciamento ético-profissional da médica.
Eu senti que PRECISAVA aproveitar aquele momento e mudar de vez minha vida, meu destino ou eu não suportaria mais.
Foi quando comecei a trabalhar a idéia de tentar outro vestibular... desta vez para o curso de medicina.
Me sentiria bem e extremamente feliz cuidando das pessoas, amava a idéia de poder salvar vidas, curar doenças.
Estava empolgada, mas eu me lembrava também da vida do meu pai, médico. Ou melhor, da falta de vida que ele tinha. Estava sempre no hospital ou consultório, trabalhava muito. Talvez por ser a única filha mulher eu era a mais próxima e ligada a ele. Foi um pai ausente. Não participava dos trabalhos e apresentações da escola, minha mãe sempre tentava explicar que ele trabalhava pra cuidar da gente. Era raro ele estar presente também com a gente em aniversários, natais, reveillons. E quase não tinha férias, mesmo que a gente viajasse, ele nunca ficava mais de 5 ou 6 dias com a gente. Estudava muito! Todos os dias! Acordava sempre as 5h da manhã e se sentava no sofá com aqueles livros enormes... algumas vezes eu levantava também, me sentava ao lado dele no sofá com meus lápis de cor.. adorava desenhar pra ele, muitas vezes adormecia alí dividindo o seu colo com aqueles livros.
Será que eu queria essa vida pra mim? Será que esse também seria o meu futuro? Será que eu daria conta? Todos esses questionamentos me causavam medo de falar com minha família... e se eu fracassasse mais uma vez?!
O tempo estava se passando, e a psiquiatra estava convencida de que eu estava pronta pra tentar sim, chamou minha mãe em seu consultório e me ajudou a contar e convencê-la de que eu deveria ter esta chance.
Eu teria menos de 6 meses pra estudar até o vestibular!!! Isso me preocupava e eu percebia que causava também grande tensão em todos a minha volta. As chances de eu não conseguir passar eram enormes com tão pouco tempo de estudo e diante todos aqueles problemas. Se eu fosse reprovada poderia ser um forte fator a me deixar pior e perder aquela pequena melhora que eu conquistei com tanto esforço.
Perdi meus amigos, perdi a faculdade, perdi minha fé em Deus, estava perdendo minha família também, aos poucos eu sentia que até mesmo eles estavam deixando de acreditar.
Ganhei solidão, ganhei culpa, ganhei peso... desde que comecei com as medicações engordei 14kg.
O que era mais estranho era que mesmo diante de tudo isso, não me importava. Devo dizer que isso era a pior parte de tudo. Seria também um efeito colateral daqueles remédios? Acho que até preferia a tristeza, pq vou confessar que triste mesmo é não sentir nada!! Não se sentir viva mas sim um robô em modo automático.
Aquela psiquiatra abençoada entendeu. Parecia ser a única criatura que ainda acreditava que poderia ser diferente!
Resolveu diminuir a dose do antipsicótico, de forma lenta e gradual.. Eu adorava a forma que ela terminava as sessões de psicanálise dizendo que se ela não acreditasse no trabalho dela, ela não estaria alí.
Os dias foram se passando, as semanas, os meses e eu parecia estar mais adaptada aos efeitos de sonolência e com a dose menor eu estava menos robótica, começava a ter sentimentos, emoções e aquilo me fazia me sentir mais humana. Me lembrava de relance da jovem tão querida e requisitada que eu era, determinada, cheia de sentimentos e idealizações. E essas lembranças me faziam querer mudar!!!
Resolvi utilizar todos os recurssos a meu favor, fazia terapia agora 2 a 3 vezes por semana e me desafiei a falar mais, falar tudo, despejar tudo alí! E eu agora entendia o porque da tão famosa frase "falar é terapêutico, as palavras curam".
Antes os dias de terapia eram um tormento para mim, me sentia observada, analisada, e os 40 minutos pareciam 40 horas intermináveis. Agora eu me sentia a vontade, as vezes chegava a falar até por uma hora. E de tanto falar eu fui permitindo aquela senhora me conhecer melhor, e eu também me re-conhecer novamente junto a ela. Entender minhas atitudes, minhas reações.
Os dias de ir naquele consultório foram se tornando empolgantes, eu ficava feliz desde a véspera... Gostava de chegar uns 20 minutos antes do meu horário só pra sentar perto da simpática secretária que agora já me recebia com um abraço cativante. Me sentia acolhida e até mesmo querida alí, mesmo com todo o distanciamento ético-profissional da médica.
Eu senti que PRECISAVA aproveitar aquele momento e mudar de vez minha vida, meu destino ou eu não suportaria mais.
Foi quando comecei a trabalhar a idéia de tentar outro vestibular... desta vez para o curso de medicina.
Me sentiria bem e extremamente feliz cuidando das pessoas, amava a idéia de poder salvar vidas, curar doenças.
Estava empolgada, mas eu me lembrava também da vida do meu pai, médico. Ou melhor, da falta de vida que ele tinha. Estava sempre no hospital ou consultório, trabalhava muito. Talvez por ser a única filha mulher eu era a mais próxima e ligada a ele. Foi um pai ausente. Não participava dos trabalhos e apresentações da escola, minha mãe sempre tentava explicar que ele trabalhava pra cuidar da gente. Era raro ele estar presente também com a gente em aniversários, natais, reveillons. E quase não tinha férias, mesmo que a gente viajasse, ele nunca ficava mais de 5 ou 6 dias com a gente. Estudava muito! Todos os dias! Acordava sempre as 5h da manhã e se sentava no sofá com aqueles livros enormes... algumas vezes eu levantava também, me sentava ao lado dele no sofá com meus lápis de cor.. adorava desenhar pra ele, muitas vezes adormecia alí dividindo o seu colo com aqueles livros.
Será que eu queria essa vida pra mim? Será que esse também seria o meu futuro? Será que eu daria conta? Todos esses questionamentos me causavam medo de falar com minha família... e se eu fracassasse mais uma vez?!
O tempo estava se passando, e a psiquiatra estava convencida de que eu estava pronta pra tentar sim, chamou minha mãe em seu consultório e me ajudou a contar e convencê-la de que eu deveria ter esta chance.
Eu teria menos de 6 meses pra estudar até o vestibular!!! Isso me preocupava e eu percebia que causava também grande tensão em todos a minha volta. As chances de eu não conseguir passar eram enormes com tão pouco tempo de estudo e diante todos aqueles problemas. Se eu fosse reprovada poderia ser um forte fator a me deixar pior e perder aquela pequena melhora que eu conquistei com tanto esforço.
domingo, 24 de junho de 2012
Um ano...
As coisas estavam indo bem demais pra ser verdade...
O tempo foi se passando e com ele a empolgação também. Todas aquelas novidades do curso foram se tornando rotina.
Me sentia extremamente culpada... eu tinha tudo na vida, família, boas condições financeiras, estava cursando uma faculdade, tudo o que toda jovem da minha idade queria... Mas mesmo assim me sentia triste, mesmo assim as coisas não pareciam ter sentido, sentia um vazio imenso dentro de mim. Não poderia me sentir triste mas sentia, e todos sofriam sem entender, por não haver motivos.
Minha cabeça começou a se desorganizar novamente, não fazia mais questão de interpretar papéis, já não me importava mais... sentia necessidade dos cortes novamente, da dor física junto do sangue aliviando um pouco a dor da alma.
O tempo foi se passando e com ele a empolgação também. Todas aquelas novidades do curso foram se tornando rotina.
Me sentia extremamente culpada... eu tinha tudo na vida, família, boas condições financeiras, estava cursando uma faculdade, tudo o que toda jovem da minha idade queria... Mas mesmo assim me sentia triste, mesmo assim as coisas não pareciam ter sentido, sentia um vazio imenso dentro de mim. Não poderia me sentir triste mas sentia, e todos sofriam sem entender, por não haver motivos.
Minha cabeça começou a se desorganizar novamente, não fazia mais questão de interpretar papéis, já não me importava mais... sentia necessidade dos cortes novamente, da dor física junto do sangue aliviando um pouco a dor da alma.
Meus instrumentos de aula eram bastantes convidativos, possuia um estilete enorme para apontar os lápis. Fui fraca e comecei com leves arranhões, nada demais mas a água quente quando batia ali durante o banho ardia me fazendo lembrar que apesar de pequenos estavam ali. Comecei a fazer os cortes sempre no mesmo lugar, por cima, para evitar mais cicatrizes e tentar manter aquilo escondido. Mas isso dificultava também a cicatrização e comecei a ter processos inflamatórios em alguns locais.
Pedi ajuda a minha psiquiatra, ela com certeza me ajudaria! Tinha essa empatia de confiança por aquela senhora.
Ela aumentou minhas medicações... com 900mg de lítio + 30mg de olanzapina eu estava extremamente sonolenta, dormia a maior parte do tempo... seria essa a estratégia? dormir pra não me cortar? pra não dar tempo de sentir tristeza? de pensar? de nada?
Ficou muito difícil conseguir ir pras aulas a noite, me concentrar, me sentia sempre sonolenta, cansada, corpo pesado, lenta... Começou também um tremor muito forte nas mãos, era impossível conseguir desenhar assim! Fui começando a admitir que não dava mais pra continar, comecei a atrasar entregas de trabalho, deixar de fazer as resenhas, de estudar, e isso tudo doía imensamente afinal tinha essa mania de perfeccionismo, de querer sempre fazer as coisas bem feitas, de ser dedica, entre os melhores alunos e pra mim não fazia sentido continuar alí fazendo as coisas pela metade, era melhor parar. Isso apavorava minha mãe... ela dizia que se eu parasse e ficasse ociosa eu ia piorar ainda mais e adorava repetir pra mim o velho ditado "mente ociosa é oficina do diabo" e por isso mesmo diante da situação, gostava de me ver ali arrastando o curso.
Um dia estavamos na aula de desenho e eu fui pegar um dos lápis para apontar... tirei o estilete da mochila, deslizei o cabo expondo a lâmina e descamava ali lentamente a madeira do lápis, aquele movimento me hipnotizava. Depois da ponta feita, não guardei o estilete, deixei ali em cima da prancheta ao lado do bloco de folhas... a cada 3 ou 4 riscos no papel, meu olhar se desviava para aquele objeto. Achei melhor então tirar aquilo do alcance dos meus olhos e guardei novamente no fundo da mochila.
Começou o horário de desenho técnico e eu não conseguia segurar firme a régua e a lapiseira nas mãos trêmulas. Traçar uma reta firme era um tormento. Era um tempo enorme pra conseguir transformar as escalas dos projetos mesmo com o escalímetro ali. Os tracinhos dos milimetros nas réguas pareciam estar borrados, desfocados... medir 2cm demorava 15min. Fui ficando impaciente, nervosa, aflita, embolei 4 folhas de projeto esse dia na aula e joguei fora pra recomeçar. Na quinta vez a professora de ar maternal se sentou ao meu lado, pacientemente perguntando o que estava acontecendo comigo naquela semana. Eu não conseguia falar, não conseguia levantar, não conseguia ter reação nenhuma.
Começou o último horário daquele dia... história da arte... a sala escura, com a professora apresentando várias fotos no datashow.
Me lembro de estar bastante estranha, saí da sala pra dar uma volta, talvez faria bem.... não sei o que houve este dia, se entrei em transe, se foi ato automático, só sei que eu não tinha controle sobre mim e quando voltei a ficar consciente, eu levei um baita susto! Estava no banheiro da faculdade, com o estilete sujo na mão... sangue pelo chão e escorrendo nos meus ombros e braços. O que eu havia feito?? Assustada e sem reação, fui tentar limpar e bem nesta hora uma das minhas colegas entrou no banheiro, até tentou disfarçar seu desespero, mas estava visivelmente assustada. Me levou até uma das repartições dos vazos sanitários e foi calmamente me limpando com papel higiênico tentando conversar comigo pra entender aquilo. Uma funcionária da faculdade telefonou na minha casa, pedindo pra me buscarem.
Levei maior bronca e ninguém acreditava que eu estava inconsciente naquele ato.
Já estava fazendo um ano de curso e eu anunciei que eu tinha dado o meu melhor, havia tentado de tudo, mas não dava mais pra continuar. Minha mãe então disse que só permitiria eu parar se eu terminasse o semestre, assim seria possível trancar minha matrícula. Então assim eu fiz.
sábado, 23 de junho de 2012
Arquitetura..
Finalmente janeiro chegou, estava ansiosa com o primeiro dia na faculdade.. pra falar a verdade estava com medo. Pensei comigo mesma e vi que não havia motivo nenhum para medo. Diante das coisas que passei, nada poderia ser pior.
Poderia ser melhor, até. Já que era um novo ambiente, novas pessoas, não me conheciam, então poderia ser uma ótima chance para encarar um novo papel alí.
E foi assim que eu fiz... O curso era noturno, me preparei durante o dia todo... Cheguei na sala de aula sorridente e simpática. Se os atores da televisão conseguem fazer vários papéis, das mais variadas personalidades possíveis, pq eu não poderia também?
Eram poucos alunos, uns 3 ou 4 jovens apenas e os demais já mais maduros. Uma delas, uma senhora de cabelo mais curto me passava uma boa energia.
Uma das jovens era muito séria e tinha um semblante superior, não gostava daquele ar soberbo, muito menos da mania que ela tinha de coçar o cabelo.
Uma outra moça era extremamente falante, e se percebia nela grande alegria em estar ali.
Havia também 2 jovens rapazes... um bastante vaidoso, roupas da moda, cabelo mais cheio, porém bem cortado, "deve ser o galã da turma" -logo pensei-.
O outro parecia bastante tímido, tinha um semblante estranho, olhar distante e fixo, usava óculos e uma camiseta largada, "seria o nerd" -pensei-.
Os demais não chamavam tanta atenção e nem tive muito tempo de observar, logo entrou o professor. Se apresentou como professor de desenho artístico, era um sujeito baixinho, cabelos grisalhos, olhos pequenos. Me empolguei muito, desde criança adorava desenhar mas nunca havia feito nenhum curso, nenhuma aula e essa oportunidade me fascinava.
Ele entregou uma folha em branco juntamente com um lápis para cada um de nós e pediu que desenhassemos uma bicicleta.
Seria ali um teste de habilidades? Se era ou não, todos deram risada e começamos a desenhar. O engraçado era um olhando pro desenho do outro, ali eu pude relaxar pois realmente o dom de desenho deles era trágico.. Menos a menina séria. Estava sentada longe e eu não podia ver seu desenho, mas parecia ali uma grande desenhista, cabeça baixa, olhar compenetrado e severo.
O professor recolheu nossos desenhos rindo junto com a gente daquelas bicicletas que mais pareciam ter sido feitas por pré-escolares.
Logo em seguida entrou o professor de topografia. Alto, gordinho, bastante cativante... ele era também o coordenador do curso, falou que teriamos que lidar com a matemática, o que me desanimou um pouco mas eu superaria.
A professora de história da arte era malucona, uma mulher bastante moderna de cabelos vermelho como fogo, um piercing no nariz, inúmeras tatuagens estranhas pelo corpo e bastante visíveis. Particulamente uma delas me incomodava bastante, a do braço esquerdo, parecia uma fatia de salame. Como pode alguem tatuar isso? Ela entrou na sala, roupa curta, decotada, toda preta, com uma garrafa de café na mão, sentou-se em cima da mesa, enquanto falava tomava seus goles de café e fumava seu cigarro. Embora provocasse grande polêmica, sua inteligencia,percepção e interpretação da arte eram admiráveis.
A professora de desenho técnico lembrava uma mãe pela extrema atenção, carinho e preocupação conosco.
Eu não poderia estar mais feliz e empolgada com tudo isso!
Já nas primeiras semanas me destaquei não só por minha dedicação, me cobrar e querer fazer tudo da melhor forma possível sempre fez parte da minha personalidade, mas alí eu tinha algo ainda mais empolgante: o desenho!
Como foi bom desenvolver um pouco daquele talento, amava as aulas de desenho artístico, desenhar as formas, as sombras, as luzes, aprender a usar os tons de lápis preto e de cor. O professor se empolgava também, passava horas na minha mesa rabiscando e me ensinando. Como eu admirava aquela criatura... um pouco desligado, voado, coisa de artista. Mas gostava daquele jeito, me deixava a vontade. Em pouco tempo me tornei monitora e auxiliava os colegas com maior dificuldade no desenho.
Após um mês de aula, um novo aluno chegou na nossa turma. Demorou para começar pois estava no exterior fazendo intercâmbio. Acho que ele passou tanto tempo fora do Brasil que chegou com cara de gringo mesmo, branquelo, cabelo meio cor de ferrugem e um sotaque estranho. Me prontifiquei a ajudá-lo, aos poucos se tornou um grande amigo.
Com o tempo, a nossa turma se deu muito bem. E até mesmo a garota séria de cara fechada passou a se enturmar e descobri que era uma boa pessoa.
Tudo estava maravilhosamente bem, eu me esforçava o máximo que podia pra me socializar e parecer o menos robótica possível.
Coloquei uma meta: cumprimentar todos os dias cada colega com um abraço e dizer boa noite a cada pessoa que cruzasse por mim nos corredores.
Parece bobo, como algo tão simples que era uma coisa automática em minha vida antes se tornou tão difícil pra mim? Alcançar essa meta faria toda diferença.
As coisas pareciam realmente querer tomar um rumo diferente agora....
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Final de ano
Fui aprovada no vestibular de arquitetura e esta boa notícia encheu meu coração de ânimo. Era dezembro, nesta época eu e meus irmãos costumávamos viajar para passar o natal e reveillon com os parentes que moram fora.
Família grande reunida, todo ano sempre aquela festa enorme e a empolgação dos primos e tios juntos.
Esse ano foi diferente para mim. Não conseguia me socializar, queria meu cantinho, estar sozinha. É claro que todos acharam estranho e eu me sentia mal com isso. Mas por mais que eu me esforçasse, era como se eu estivesse vazia por dentro, fazendo todas as coisas como andar, comer, dormir em automatismo... sim, parecia um robô.
Um dos meus tios, conceituado neurologista e neurocirurgião da região (e pelo visto metido a psiquiatra também) veio explicar que essa ''robotização'' seria efeito colateral do antipsicótico mas que logo meu organismo se adaptaria.
Ótimo! Agora além de eu ter virado assunto da família devido a minha drástica mudança física e psíquica agora sou um robô. Isso tudo me fazia sentir vergonha de mim mesma e o resultado foi um isolamento social cada vez mais forte.
Minha mãe histérica como sempre, tirou minha carta de despedida da bolsa e mostrou pra uma das minhas tias. Ela mais histérica ainda, colocou uma das mãos sobre o meu ombro e disse que isso era uma doença, que era só eu tomar os remédios direitinho e eu ficaria bem. Bom, ela é médica e ouvir isso me motivava mais ainda a ingerir as medicações certinhas mesmo apesar dos efeitos colaterais.
Ela repetia: "-Tem que tratar, tem que tratar, tem que tratar!" Ela mal percebeu mas neste momento ela já estava me empurrando com força, foi quando disse que perdeu a sua filha assim.
Neste momento um silêncio enorme invadiu o quarto... "O que ela estava falando?" -eu pensei- Eu sabia da morte da minha prima há uns 3 anos, mas foi em um acidente de carro.
Minha tia estava ali, paralisada, segurando aquele pedaço de papel na mão.. as lágrimas embaçavam seus óculos quando de repente alterou seu tom de voz e gritava: "-7 meses após a morte da minha filha, eu encontrei uma carta exatamente igual a essa dentro de um dos seus livros. Não foi um acidente, ela se matou." Eu podia sentir o tamanho da revolta naquele timbre de voz... ela balançava o papel e gritava "-uma carta de despedida exatamente igual a essa. Que se eu tivesse encontrado antes, não teria acontecido nada disso". Eu notava um grande sentimento de culpa naquelas palavras, como pode uma médica perder sua única filha por não ter percebido nela uma doença? Deve ser realmente difícil...
E eu, eu me sentia cada vez mais assustada, porém com mais determinação de me curar.
Família grande reunida, todo ano sempre aquela festa enorme e a empolgação dos primos e tios juntos.
Esse ano foi diferente para mim. Não conseguia me socializar, queria meu cantinho, estar sozinha. É claro que todos acharam estranho e eu me sentia mal com isso. Mas por mais que eu me esforçasse, era como se eu estivesse vazia por dentro, fazendo todas as coisas como andar, comer, dormir em automatismo... sim, parecia um robô.
Um dos meus tios, conceituado neurologista e neurocirurgião da região (e pelo visto metido a psiquiatra também) veio explicar que essa ''robotização'' seria efeito colateral do antipsicótico mas que logo meu organismo se adaptaria.
Ótimo! Agora além de eu ter virado assunto da família devido a minha drástica mudança física e psíquica agora sou um robô. Isso tudo me fazia sentir vergonha de mim mesma e o resultado foi um isolamento social cada vez mais forte.
Minha mãe histérica como sempre, tirou minha carta de despedida da bolsa e mostrou pra uma das minhas tias. Ela mais histérica ainda, colocou uma das mãos sobre o meu ombro e disse que isso era uma doença, que era só eu tomar os remédios direitinho e eu ficaria bem. Bom, ela é médica e ouvir isso me motivava mais ainda a ingerir as medicações certinhas mesmo apesar dos efeitos colaterais.
Ela repetia: "-Tem que tratar, tem que tratar, tem que tratar!" Ela mal percebeu mas neste momento ela já estava me empurrando com força, foi quando disse que perdeu a sua filha assim.
Neste momento um silêncio enorme invadiu o quarto... "O que ela estava falando?" -eu pensei- Eu sabia da morte da minha prima há uns 3 anos, mas foi em um acidente de carro.
Minha tia estava ali, paralisada, segurando aquele pedaço de papel na mão.. as lágrimas embaçavam seus óculos quando de repente alterou seu tom de voz e gritava: "-7 meses após a morte da minha filha, eu encontrei uma carta exatamente igual a essa dentro de um dos seus livros. Não foi um acidente, ela se matou." Eu podia sentir o tamanho da revolta naquele timbre de voz... ela balançava o papel e gritava "-uma carta de despedida exatamente igual a essa. Que se eu tivesse encontrado antes, não teria acontecido nada disso". Eu notava um grande sentimento de culpa naquelas palavras, como pode uma médica perder sua única filha por não ter percebido nela uma doença? Deve ser realmente difícil...
E eu, eu me sentia cada vez mais assustada, porém com mais determinação de me curar.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Para a doença, o remédio...
A data do vestibular estava se aproximando e eu já não conseguia mais me reconhecer, não pensava mais em me matar, afinal depois do ocorrido minha família não era mais a mesma, minha mãe havia perdido o brilho do olhar, eu me sentia culpada. Sem falar que eu era vigiada o tempo todo e minhas coisas sempre revistadas. Mas aquela garota cheia de energia e vontades não existia mais, e sim uma jovem passiva, sem força e sem vontade, fazer até mesmo as atividades mais simples como levantar da cama, lavar o cabelo era difícil.. muitas vezes fui taxada de preguiçosa, desleixada.
E na verdade eu não me importava mesmo, fui deixando de cuidar, olhava as fotos e em nenhuma delas havia um sorriso, no lugar do cabelo loiro existia agora o ruivo.. vermelho, sangue, cortes? Sim, talvez fosse essa a justificativa pra mantê-los tingidos assim. Não podia mais me cortar, primeiro pq causava sofrimento a minha família e segundo pq eu era vigiada e tinha constantemente minhas coisas reviradas. Então busquei outras alternativas de multilação e dor, como vários brincos nas orelhas, piercing. O que me fazia estar cada vez mais distante de mim mesma.
Agora eu era capaz de admitir estar doente. E toda pessoa doente precisa de remédios. Foi quando meu pai resolveu tentar me medicar e eu aceitei. Tentamos vários tipos de antidepressivo, porém sem sucesso.
Será que dessa vez seria mesmo diferente? Será que agora daria mesmo certo? São perguntas que mesmo transmitindo incerteza já possuiam um tom de esperança....
E na verdade eu não me importava mesmo, fui deixando de cuidar, olhava as fotos e em nenhuma delas havia um sorriso, no lugar do cabelo loiro existia agora o ruivo.. vermelho, sangue, cortes? Sim, talvez fosse essa a justificativa pra mantê-los tingidos assim. Não podia mais me cortar, primeiro pq causava sofrimento a minha família e segundo pq eu era vigiada e tinha constantemente minhas coisas reviradas. Então busquei outras alternativas de multilação e dor, como vários brincos nas orelhas, piercing. O que me fazia estar cada vez mais distante de mim mesma.
Agora eu era capaz de admitir estar doente. E toda pessoa doente precisa de remédios. Foi quando meu pai resolveu tentar me medicar e eu aceitei. Tentamos vários tipos de antidepressivo, porém sem sucesso.
Com o tempo, fui perdendo completamente a vontade de sair e estar perto de pessoas. Medo, pânico, sensação de estar sempre acompanhada.
Foi quando eu decidi chamar meus pais e comunicar uma decisão: "-Eu quero procurar um novo psiquiatra."
Lembro da alegria e empolgação da minha mãe: "Dessa vez vai dar certo" ela dizia, "pois agora vc está procurando por vontade própria e é preciso querer pra dar certo."
Não tinhamos referencia de profissionais, o mais recomendado da cidade foi aquela tragédia! Então minha mãe abriu o catálogo telefônico na parte de médicos, bateu o olho em um dos nomes e disse firme: "-Vai ser essa!". Ligamos e marcamos a consulta.Lembro da alegria e empolgação da minha mãe: "Dessa vez vai dar certo" ela dizia, "pois agora vc está procurando por vontade própria e é preciso querer pra dar certo."
Cheguei tímida ao consultório, mas dessa vez tive uma boa sensação, um espaço bacana, claro, bem ventilado e pintado com cores alegres. Aquela parede laranja me divertia, tinha um formato ondulado e eu gostava das pastilhas de vidro que distorciam a cara da gente se olhasse de perto.
Fui recebida com um sorriso da simpática secretária que me convidou a sentar e ler uma revista enquanto a Dra. não me chamava. Embora eu não tivesse condiçoes nenhuma para ler notícias, aceitei como forma de agradecimento por tamanha atenção da moça. Em poucos minutos a porta se abriu, era uma mulher já mais madura, bem vestida. Me chamou pelo nome. Ao entrar no consultório senti minhas mãos gelarem, eu teria que contar tudo que havia acontecido e ficar relembrando aquelas coisas não era nada agradável. Mas tinha gostado da sala... grande, arejada, clara e acolhedora pela iluminação natural dos raios solares que entravam pela cortina aberta. Ela me direcionou para um sofá grande e se sentou na minha frente em sua poltrona.
Dessa vez não sei o que houve, como as palavras sairam da minha boca de forma tão fluente, mas consegui contar tudo que havia acontecido comigo até então.
Ela não se alterou muito... nada de se jogar pela sala numa cadeira de rodinhas, nada de sapatos bizarros balançando em minha direção. Nada de euforia ou dramas. Ao contrário de tudo isso, um olhar doce.
Me receitou Litio e Olanzapina. Me pareceu estranho, afinal eu já sabia um monte de nomes de antidepressivos e estes eu não conhecia. Fui logo me informar. Não eram antidepressivos e sim um estabilizador de humor e um antipsicótico.Será que dessa vez seria mesmo diferente? Será que agora daria mesmo certo? São perguntas que mesmo transmitindo incerteza já possuiam um tom de esperança....
quarta-feira, 20 de junho de 2012
O resultado...
Enfim, continuando a história anterior...
Retornei ao psiquiatra após uma semana usando a medicação. Estava me sentindo pior ainda, além de triste eu ficava agitada todas as noites após tomar o rivotril e não sabia dizer o pq, já que ele havia falado que era pra acalmar e dormir mais tranquila. Ao relatar isso, o médico disse que era normal pois era necessário um tempo para os remédios fazerem efeito que os primeiros 15 a 30 dias poderia me sentir pior mesmo, me notou bastante agitada e me deu metade de um comprimido de rivotril lá mesmo em seu consultório e orientou que eu tomasse dosagem dobrada a noite.
Voltei pra casa a pé esse dia e quase não chego... tonta pela medicação. Abri a porta, me joguei no sofá e o estranho é que não conseguia dormir e não me sentia nada calma, me revirava ali.. até o momento que caí no chão e daí eu não conseguia mais parar de rir.
Que sensação estranha, parecia estar drogada. Muito inquieta eu andava de um lado para o outro.
Fui até o banheiro, peguei uma gilette de barbear, desmontei toda aquela estrutura de plástico e com a lâmina em mãos, começei a me cortar, eu precisava fazer aquilo parar. Claro, escolhi um local escondido onde ninguém fosse perguntar sobre cicatriz e me achar louca, e ao ver o sangue escorrendo pelo corte na perna, toda aquela agitação e loucura se acalmavam.
No dia seguinte era a terapia com a psicóloga. Embora trabalhasse em conjunto com o psiquiatra, eram bem diferentes um do outro. Ela era bem careta e usava roupas bem mais formais, nada jovial e no lugar da cadeira esvoaçante de rodinhas, ela se sentava em uma poltrona fixa ao chão. Mas a mania de cruzar as pernas apontando o pé na minha direção era a mesma.. ela usava um sapato preto com bolinhas amarelas, bico fino.
Ela se sentou e tinha em mãos o meu caderno, com meus textos... disse que o psiquiatra havia repassado pra ela. Começou a ler um a um em voz alta e me encher de perguntas como se eu estivesse cometendo pecados. Não gostei, voltei pra casa desanimada.
Mais uma semana se passou e eu comecei a ter certeza de que estava a cada dia pior e não poderia mais ficar naquela situação. Eu não me reconhecia e admitia, estava viciada na auto-mutilação e era necessário cada vez mais cortes e mais profundos pra aliviar minha dor e minha agitação, até um momento que aquilo não era mais suficiente e comecei a pensar em suicídio. Quando me peguei pensando fixamente na minha morte, planejando etapa por etapa resolvi procurar novamente o médico e implorar ajuda, ele insistiu que era normal e aumentou mais ainda a dose do rivotril.
Que revolta eu senti! Cara, vc está falando que não está bem, está piorando com a medicação e o que a criatura faz? insiste e vai aumentando a dosagem! Meio contraditório né... mas ele é o médico, quem sou eu pra contestar algo, minha obrigaçao era apenas obedecer. Neste dia ele me emprestou um livro, cheguei em casa e comecei a ler... era um livro sobre suicídio e devo confessar aquilo só me fez afundar mais ainda, pensar mais ainda em morrer. Aquilo já não saía da minha cabeça e lendo aquilo então...
O final de semana chegou e eu e meu irmão iriamos para a cidade dos meus pais. Ao chegar lá chamei meu pai pra conversar, afinal ele é médico e saberia me orientar. Mas como sempre ele ficou naquela passividade sem muita opinião.
Escrevi uma carta despedindo da minha família, esperei todos deitarem tomei uma caixa inteira do rivotril, fui até a sala onde meus pais guardavam algumas bebidas, whisky, vokda, avistei um licor peguei a garrafa e tomei ali mesmo com a boca no gargalo. Voltei para o quarto de estudos que é mais no fundo e encontrei uma lâmina de bisturi junto dos materiais do meu pai. Foi o tempo de fazer um corte no pulso e dali não me lembro mais de muita coisa. Tenho alguns flashes as vezes eu deitada na cama no hospital, muita gente conversando, não me lembro bem. As vezes agradeço a Deus por essa minha memória fraca, encaro até como forma de defesa não ficar se lembrando das coisas ruins.
A minha próxima lembrança já é na casa junto com meu irmão, eu subindo as escadas meio tonta. Todos tristes e revoltados com o que eu fiz. Minha mãe resolveu se mudar, ficar comigo um tempo.
Ao voltar na psicóloga, levei uma bronca, ela toda alterada dizendo que eu deveria ter ligado pra ela, e daí eu me revoltei e perguntei ligar como já que era final de semana e o único telefone dela que eu tinha era o do consultório. Ela então se reuniu com o psiquiatra e juntos decidiram me internar. Chamaram minha mãe e falaram sobre uma clínica particular na capital. Minha mãe logo se revoltou e percebeu que talvez aqueles dois estivessem mesmo me enlouquecendo, eu aproveitei pra dizer que ia abandonar tudo, não queria mais saber daqueles dois.
Foi necessário passar por tudo isso para que meus pais concordassem comigo.
Primeira consulta...
Voltarei no tempo hoje para descrever minha primeira consulta com um psiquiatra, bastante traumática por sinal...
Aos 14 anos saí da minha cidade para morar numa cidade maior, ter melhores condições de estudo e chances no vestibular. Fui morar com meu irmão mais velho que já estudava lá... Senti bastante essa mudança, estar longe dos meus pais e do meu irmão caçula.
Aos poucos as pessoas foram me notando triste, desanimada... Aquela garota alegre que contagiava a turma foi aos poucos se apagando. Adorava participar das viagens do colégio, treinos esportivos, fazia parte do time de volei e handbol, viajava para campeonatos, gostava muito de participar dos simulados, testes de notas e rendimento, estava sempre entre os melhores alunos.
Eu não percebia, mas para quem convivia comigo era nítido minha mudança de comportamento. Começei a beber de forma exagerada, inventava trabalhos e grupos de estudo para ir pra botecos, meu rendimento no colégio começou a cair, no meio a isso tudo, minha família começou a se desmoronar, meus pais brigando sem parar.
Chegou então o ano do vestibular, eu já não tinha mais vontade nem perspectiva nenhuma. Muitas dúvidas surgiram quanto a escolha, sempre gostei muito da área biológica, sempre admirei meu pai (médico) e desde criança eu o acompanhava no hosptial. Mas não me sentia capaz para tentar um vestibular de medicina. Por outro lado, sempre gostei muito de desenhar, de artes. Desta vez minha mente estava com idéias horríveis e fui forçada por meus pais a visitar o psiquiatra.
Entrei no consultório pequeno, apertado, me sentei na sala de espera e me sentia sufocada naquele ambiente nada acolhedor e apertado. De repente a porta se abre e um jovem médico sorri e me chama. Entrei em sua sala, esta era um pouco maior, porém assustadora também. Fui convidada a sentar num sofá velho, até meio rasgado, enquanto ele se sentou numa cadeira grande confortável de rodinhas, cruzou as pernas em minha direção como se aquele sapato grande apontasse para mim, colocou as mãos sobre os joelhos, e disse: " - O que te aflinge?"
Permaneci em silêncio observando aquela silhueta... um rapaz estiloso, jovial, cabelo curto arrepiado com gel, e aquele olhar ao mesmo tempo profundo, tinha os óculos como escudo. Óculos de grau, com armação colorida (que médico moderno, eu pensei). Desviei meus olhos tentando entender um pouco aquele ambiente, meio escuro, meia luz... Não me incomodava, a escuridão até me aconchegava, a conhecia muito bem. Alguns livros no fundo da sala, uns quadros estranhos para decoração, um surrealismo meio fajuto,
e bem ao lado como se fosse uma divisória falsa da sala, havia uma maca. Pq um psiquiatra precisaria de uma maca? Por alguns minutos me fez lembrar instrumentos de tortura. Então ele me perguntou novamente: " - Jovem, o que te aflinge?"
Eu respondi de forma devagar, as palavras pareciam lentas. Disse que meus pais estavam me achando triste. Ele perguntou mais, quis saber detalhes. Mas o máximo que saia da minha boca era uma voz trêmula e monossilábica. Então eu disse que preferia escrever, tirei da minha bolsa um caderno de rascunho onde eu costumava redigir meus sentimentos. Ele de repente deu um impulso na cadeira com a ponta dos pés e veio parar do meu lado, pegou minhas anotações, começou a ler de forma rápida. Balançava aquele pé de sapato grande cada vez mais rápido em minha direção e com outro pontapé arrastou a cadeira pra perto da mesa. Disse que eu estava deprimida e teria que tomar uns remédios. Escreveu na receita, me entregou orientando a forma de tomar, segurou firme minhas mãos, disse pra eu contar com ele, que ele queria me ver em breve e me orientou a ser acmpanhada pela psicologa que trabalhava em parceria com ele.
Eu respondi de forma devagar, as palavras pareciam lentas. Disse que meus pais estavam me achando triste. Ele perguntou mais, quis saber detalhes. Mas o máximo que saia da minha boca era uma voz trêmula e monossilábica. Então eu disse que preferia escrever, tirei da minha bolsa um caderno de rascunho onde eu costumava redigir meus sentimentos. Ele de repente deu um impulso na cadeira com a ponta dos pés e veio parar do meu lado, pegou minhas anotações, começou a ler de forma rápida. Balançava aquele pé de sapato grande cada vez mais rápido em minha direção e com outro pontapé arrastou a cadeira pra perto da mesa. Disse que eu estava deprimida e teria que tomar uns remédios. Escreveu na receita, me entregou orientando a forma de tomar, segurou firme minhas mãos, disse pra eu contar com ele, que ele queria me ver em breve e me orientou a ser acmpanhada pela psicologa que trabalhava em parceria com ele.
Saí de lá achando tudo estranho e teatral... Pq aquele médico ficava se jogando de um lado para o outro na sala com sua cadeira de rodinhas?
Chegando em casa, minha mãe sempre muito preocupada e atenciosa, tratou logo de comprar as duas medicações e me fazer tomar certinho. O antidepressivo pela manhã e o remédio pra dormir a noite.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Como eu sou...
Sou uma pessoa aparentemente fácil de se relacionar, divertida, bem humorada, sempre requisitada pelos amigos.
Sou a palhaça da casa, aquela filha que se expõe ao ridículo pra fazer os pais e os irmãos rirem. As vezes isso se torna exagerado demais e até parece ser algo forçado, mas é um exagero natural, eu preciso rir e fazê-los rir também, as vezes até pareço mongol, até que eu não consigo perceber minhas palavras e começo a exagerar nos comentários, e dai nada do que eu faço faz sentido e as palavras não conseguem mais acompanhar meus pensametos.
Sou muito inquieta, tem sempre algo me incomodando, tem pensamentos que vem na minha mente de repente que me perseguem, e isso começa e me deixar irritada, impaciente, e até agressiva e muitas vezes eu acabo fazendo coisas que depois me arrependo como ofender e discutir com médicos, professores, colegas, atendentes de loja, funcionários, motoristas no trânsito e qualquer pessoa que esteja no meu caminho na hora e no momento. Tudo pode estar calmo mas de repente por alguma coisa que me falaram, mesmo que não seja nada de mais eu explodo e posso ter reações de agressão verbal e raiva que é pior do que qualquer agressão física. E isso pode durar menos de um minuto, mas permanecer durante a vida inteira na mente de quem foi ofendido. Uma ferida externa pode ser curada em dias com remédios e nunca mais ser lembrada mesmo que fique cicatrizes mas uma palavra dita em um momento de fúria pode criar feridas permanentes. E eu extravaso um pouco disso nos treinos de muay-thai, treinar artes marciais foi fundamental para meu equilibrio da agressividade.
Comecei o curso de arquitetura, mas fiz apenas um ano e parei. Demorei não sei quantos anos pra tirar carteira de motorista pq iniciava o processo e largava... Esses dias eu queria fazer karatê, agora eu tirei a ideia do karatê para começar jiu-jitsu, já conversei com o pessoal da academia, olhei horários e preço mas também já desanimei. Daqui a pouco eu começo a ter ideias de fazer um monte de coisas, mas no final de 10 coisas que eu planejo, faço 2 e não concretizo nenhuma. Este sempre foi uma grande dificuldade pra mim, quase desisti da medicina várias vezes e ainda tenho esse medo com menos de 200 dias pra formatura!
Isso não me atinge só nos estudos e nas minhas atividades mas nos meus relacionamentos também.
Isso não me atinge só nos estudos e nas minhas atividades mas nos meus relacionamentos também.
Eu posso me envolver profundamente com uma pessoa e de repente na metade do caminho eu desisto, me desinteresso, sou mestre nisso, mas é algo que foge do meu controle, muitas vezes me culpo, me sinto cafajeste, mas não gosto de brincar com sentimentos pois sei mais do que ninguém o quanto é perigoso uma desilusão amorosa e quantas tragédias podem causar.
O pior são quando pessoas se machucam e se magoam comigo, isso me rasga a
alma só de lembrar quantas oportunidades eu desperdicei, quantas pessoas
eu fiz sofrer, quantos amores eu perdi e como uma pessoa realmente pode mudar o rumo e o destino de outra pessoa.Eu sou aquele ser cativante, causo um enorme impressionismo nas pessoas que eu conheço, quem não gosta de alguém com um sorriso cativante, que te faz rir, que conversa bastante sobre tudo que é assunto, que é carinhosa, uma boa ouvinte, fala bonito e tem olhos que brilham?
Agora imagina o contrario de tudo isso depois que a minha empolgação passa, é praticamente impossivel compreender um ser que muda tudo o que era de uma hora para outra. Parece que eu sou uma conquistadora, egoista, aproveitadora, mentirosa e por aí vai.
O que sou de verdade?
Qual a metade que equivale a minha verdadeira natureza?
Por que tudo que era empolgante perde o valor?
As vezes eu prefiro os meus momentos de vazio, pois neles eu fico inerte a todo tipo de sentimento, não machuco a mim e nem a ninguem, mas deixo de existir por alguns instantes e me torno um imenso vazio até que as minhas metades se juntem novamente e formem o ser do qual eu tenho amor mas tenho ódio, do qual eu confio mas tenho medo, do qual eu criei mas quero destrui-lo, aquele que vem de mim mas não é meu, que você diz que é seu, mas a nada e a ninguem pertence.
Primeiro Post
Boa tarde pessoal,
como é o primeira postagem gostaria de justificar o motivo da criação do blog: tentar falar um pouco sobre mim, vivências, sensações... apenas gritar.
Estou prestes a fazer 25 anos. Estou no meu ano de formatura do curso de medicina, sou uma moça com boas condiçoes financeiras, de muitos amigos, uma família que apesar de todos os defeitos é bastante atenciosa e me apoia em tudo.
Vc provavelmente deve estar se perguntando o que uma moça dessas tem tanto pra gritar? Te parece uma vida tranquila, realizada, como tudo o que vc queria?
Pois bem... não se deixe levar pelas aparências!Como modelar um adulto que viveu a vida de forma intensa e desequilibrada, e fazer com que ele mude a característica da qual ele se habituou?
Talvez tenha me acostumado com o fato de ser assim: Quando não sei o que tenho geralmente culpo as pessoas, e acho que o erro está nos outros e não em mim.
Mas depois vem o baque , quando percebo que tem coisas que acontecem repetidamente, e que não é normal só as pessoas errarem e eu não. É até ignorância achar que o mundo inteiro está contra mim.
De repente alguém diz:
-Você não é uma pessoa normal, vai se tratar.
E quero começar o meu grito exatamente por esta frase: "vai se tratar". Que faz parte da minha vida desde muito cedo.... É bem nítida em minha memória o início da minha adolescência, em que meus pais tentavam me mostrar que eu precisava de ajuda. Não quis enxergar, teve que ser a força... e é aí que começa todos os meus gritos.
E espero poder compartilhar um pouco. Afinal já não cabem mais aqui dentro de mim.
Com carinho,
Uma moça sufocada.
como é o primeira postagem gostaria de justificar o motivo da criação do blog: tentar falar um pouco sobre mim, vivências, sensações... apenas gritar.
Estou prestes a fazer 25 anos. Estou no meu ano de formatura do curso de medicina, sou uma moça com boas condiçoes financeiras, de muitos amigos, uma família que apesar de todos os defeitos é bastante atenciosa e me apoia em tudo.
Vc provavelmente deve estar se perguntando o que uma moça dessas tem tanto pra gritar? Te parece uma vida tranquila, realizada, como tudo o que vc queria?
Pois bem... não se deixe levar pelas aparências!Como modelar um adulto que viveu a vida de forma intensa e desequilibrada, e fazer com que ele mude a característica da qual ele se habituou?
Talvez tenha me acostumado com o fato de ser assim: Quando não sei o que tenho geralmente culpo as pessoas, e acho que o erro está nos outros e não em mim.
Mas depois vem o baque , quando percebo que tem coisas que acontecem repetidamente, e que não é normal só as pessoas errarem e eu não. É até ignorância achar que o mundo inteiro está contra mim.
De repente alguém diz:
-Você não é uma pessoa normal, vai se tratar.
E quero começar o meu grito exatamente por esta frase: "vai se tratar". Que faz parte da minha vida desde muito cedo.... É bem nítida em minha memória o início da minha adolescência, em que meus pais tentavam me mostrar que eu precisava de ajuda. Não quis enxergar, teve que ser a força... e é aí que começa todos os meus gritos.
E espero poder compartilhar um pouco. Afinal já não cabem mais aqui dentro de mim.
Com carinho,
Uma moça sufocada.
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