Enfim, continuando a história anterior...
Retornei ao psiquiatra após uma semana usando a medicação. Estava me sentindo pior ainda, além de triste eu ficava agitada todas as noites após tomar o rivotril e não sabia dizer o pq, já que ele havia falado que era pra acalmar e dormir mais tranquila. Ao relatar isso, o médico disse que era normal pois era necessário um tempo para os remédios fazerem efeito que os primeiros 15 a 30 dias poderia me sentir pior mesmo, me notou bastante agitada e me deu metade de um comprimido de rivotril lá mesmo em seu consultório e orientou que eu tomasse dosagem dobrada a noite.
Voltei pra casa a pé esse dia e quase não chego... tonta pela medicação. Abri a porta, me joguei no sofá e o estranho é que não conseguia dormir e não me sentia nada calma, me revirava ali.. até o momento que caí no chão e daí eu não conseguia mais parar de rir.
Que sensação estranha, parecia estar drogada. Muito inquieta eu andava de um lado para o outro.
Fui até o banheiro, peguei uma gilette de barbear, desmontei toda aquela estrutura de plástico e com a lâmina em mãos, começei a me cortar, eu precisava fazer aquilo parar. Claro, escolhi um local escondido onde ninguém fosse perguntar sobre cicatriz e me achar louca, e ao ver o sangue escorrendo pelo corte na perna, toda aquela agitação e loucura se acalmavam.
No dia seguinte era a terapia com a psicóloga. Embora trabalhasse em conjunto com o psiquiatra, eram bem diferentes um do outro. Ela era bem careta e usava roupas bem mais formais, nada jovial e no lugar da cadeira esvoaçante de rodinhas, ela se sentava em uma poltrona fixa ao chão. Mas a mania de cruzar as pernas apontando o pé na minha direção era a mesma.. ela usava um sapato preto com bolinhas amarelas, bico fino.
Ela se sentou e tinha em mãos o meu caderno, com meus textos... disse que o psiquiatra havia repassado pra ela. Começou a ler um a um em voz alta e me encher de perguntas como se eu estivesse cometendo pecados. Não gostei, voltei pra casa desanimada.
Mais uma semana se passou e eu comecei a ter certeza de que estava a cada dia pior e não poderia mais ficar naquela situação. Eu não me reconhecia e admitia, estava viciada na auto-mutilação e era necessário cada vez mais cortes e mais profundos pra aliviar minha dor e minha agitação, até um momento que aquilo não era mais suficiente e comecei a pensar em suicídio. Quando me peguei pensando fixamente na minha morte, planejando etapa por etapa resolvi procurar novamente o médico e implorar ajuda, ele insistiu que era normal e aumentou mais ainda a dose do rivotril.
Que revolta eu senti! Cara, vc está falando que não está bem, está piorando com a medicação e o que a criatura faz? insiste e vai aumentando a dosagem! Meio contraditório né... mas ele é o médico, quem sou eu pra contestar algo, minha obrigaçao era apenas obedecer. Neste dia ele me emprestou um livro, cheguei em casa e comecei a ler... era um livro sobre suicídio e devo confessar aquilo só me fez afundar mais ainda, pensar mais ainda em morrer. Aquilo já não saía da minha cabeça e lendo aquilo então...
O final de semana chegou e eu e meu irmão iriamos para a cidade dos meus pais. Ao chegar lá chamei meu pai pra conversar, afinal ele é médico e saberia me orientar. Mas como sempre ele ficou naquela passividade sem muita opinião.
Escrevi uma carta despedindo da minha família, esperei todos deitarem tomei uma caixa inteira do rivotril, fui até a sala onde meus pais guardavam algumas bebidas, whisky, vokda, avistei um licor peguei a garrafa e tomei ali mesmo com a boca no gargalo. Voltei para o quarto de estudos que é mais no fundo e encontrei uma lâmina de bisturi junto dos materiais do meu pai. Foi o tempo de fazer um corte no pulso e dali não me lembro mais de muita coisa. Tenho alguns flashes as vezes eu deitada na cama no hospital, muita gente conversando, não me lembro bem. As vezes agradeço a Deus por essa minha memória fraca, encaro até como forma de defesa não ficar se lembrando das coisas ruins.
A minha próxima lembrança já é na casa junto com meu irmão, eu subindo as escadas meio tonta. Todos tristes e revoltados com o que eu fiz. Minha mãe resolveu se mudar, ficar comigo um tempo.
Ao voltar na psicóloga, levei uma bronca, ela toda alterada dizendo que eu deveria ter ligado pra ela, e daí eu me revoltei e perguntei ligar como já que era final de semana e o único telefone dela que eu tinha era o do consultório. Ela então se reuniu com o psiquiatra e juntos decidiram me internar. Chamaram minha mãe e falaram sobre uma clínica particular na capital. Minha mãe logo se revoltou e percebeu que talvez aqueles dois estivessem mesmo me enlouquecendo, eu aproveitei pra dizer que ia abandonar tudo, não queria mais saber daqueles dois.
Foi necessário passar por tudo isso para que meus pais concordassem comigo.
nossa remédio para acertar é complicado..
ResponderExcluirA legitimação do conhecimento é uma arma perigosa. Mesmo que o médico fizesse todo tipo de asneira, estava legitimado a isso e ninguém aceitava o que vc dizia. Uma pena.
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