quarta-feira, 20 de junho de 2012

Primeira consulta...


Voltarei no tempo hoje para descrever minha primeira consulta com um psiquiatra, bastante traumática por sinal...
Aos 14 anos saí da minha cidade para morar numa cidade maior, ter melhores condições de estudo e chances no vestibular. Fui morar com meu irmão mais velho que já estudava lá... Senti bastante essa mudança, estar longe dos meus pais e do meu irmão caçula.
Aos poucos as pessoas foram me notando triste, desanimada... Aquela garota alegre que contagiava a turma foi aos poucos se apagando. Adorava participar das viagens do colégio, treinos esportivos, fazia parte do time de volei e handbol, viajava para campeonatos, gostava muito de participar dos simulados, testes de notas e rendimento, estava sempre entre os melhores alunos. 
Eu não percebia, mas para quem convivia comigo era nítido minha mudança de comportamento. Começei a beber de forma exagerada, inventava trabalhos e grupos de estudo para ir pra botecos, meu rendimento no colégio começou a cair, no meio a isso tudo, minha família começou a se desmoronar, meus pais brigando sem parar.
Chegou então o ano do vestibular, eu já não tinha mais vontade nem perspectiva nenhuma. Muitas dúvidas surgiram quanto a escolha, sempre gostei muito da área biológica, sempre admirei meu pai (médico) e desde criança eu o acompanhava no hosptial. Mas não me sentia capaz para tentar um vestibular de medicina. Por outro lado, sempre gostei muito de desenhar, de artes. Desta vez minha mente estava  com idéias horríveis e fui forçada por meus pais a visitar o psiquiatra.
Entrei no consultório pequeno, apertado, me sentei na sala de espera e me sentia sufocada naquele ambiente nada acolhedor e apertado. De repente a porta se abre e um jovem médico sorri e me chama. Entrei em sua sala, esta era um pouco maior, porém assustadora também. Fui convidada a sentar num sofá velho, até meio rasgado, enquanto ele se sentou numa cadeira grande confortável de rodinhas, cruzou as pernas em minha direção como se aquele sapato grande apontasse para mim, colocou as mãos sobre os joelhos, e disse: " - O que te aflinge?"
Permaneci em silêncio observando aquela silhueta... um rapaz estiloso,  jovial, cabelo curto arrepiado com gel, e aquele olhar ao mesmo tempo profundo, tinha os óculos como escudo. Óculos de grau, com armação colorida (que médico moderno, eu pensei). Desviei meus olhos tentando entender um pouco aquele ambiente, meio escuro, meia luz... Não me incomodava, a escuridão até me aconchegava, a conhecia muito bem. Alguns livros no fundo da sala, uns quadros estranhos para decoração, um surrealismo meio fajuto,
 e bem ao lado como se fosse uma divisória falsa da sala, havia uma maca. Pq um psiquiatra precisaria de uma maca? Por alguns minutos me fez lembrar instrumentos de tortura. Então ele me perguntou novamente: " - Jovem, o que te aflinge?"
Eu respondi de forma devagar, as palavras pareciam lentas. Disse que meus pais estavam me achando triste. Ele perguntou mais, quis saber detalhes. Mas o máximo que saia da minha boca era uma voz trêmula e monossilábica. Então eu disse que preferia escrever, tirei da minha bolsa um caderno de rascunho onde eu costumava redigir meus sentimentos. Ele de repente deu um impulso na cadeira com a ponta dos pés e veio parar do meu lado, pegou minhas anotações, começou a ler de forma rápida. Balançava aquele pé de sapato grande cada vez mais rápido em minha direção e com outro pontapé arrastou a cadeira pra perto da mesa. Disse que eu estava deprimida e teria que tomar uns remédios. Escreveu na receita, me entregou orientando a forma de tomar, segurou firme minhas mãos, disse pra eu contar com ele, que ele queria me ver em breve e me orientou a ser acmpanhada pela psicologa que trabalhava em parceria com ele.
Saí de lá achando tudo estranho e teatral... Pq aquele médico ficava se jogando de um lado para o outro na sala com sua cadeira de rodinhas? 
Chegando em casa, minha mãe sempre muito preocupada e atenciosa, tratou logo de comprar as duas medicações e me fazer tomar certinho. O antidepressivo pela manhã e o remédio pra dormir a noite.

O resultado disso e as consultas com a psicóloga fica para a próxima postagem...

Nenhum comentário:

Postar um comentário