Fui aprovada no vestibular de arquitetura e esta boa notícia encheu meu coração de ânimo. Era dezembro, nesta época eu e meus irmãos costumávamos viajar para passar o natal e reveillon com os parentes que moram fora.
Família grande reunida, todo ano sempre aquela festa enorme e a empolgação dos primos e tios juntos.
Esse ano foi diferente para mim. Não conseguia me socializar, queria meu cantinho, estar sozinha. É claro que todos acharam estranho e eu me sentia mal com isso. Mas por mais que eu me esforçasse, era como se eu estivesse vazia por dentro, fazendo todas as coisas como andar, comer, dormir em automatismo... sim, parecia um robô.
Um dos meus tios, conceituado neurologista e neurocirurgião da região (e pelo visto metido a psiquiatra também) veio explicar que essa ''robotização'' seria efeito colateral do antipsicótico mas que logo meu organismo se adaptaria.
Ótimo! Agora além de eu ter virado assunto da família devido a minha drástica mudança física e psíquica agora sou um robô. Isso tudo me fazia sentir vergonha de mim mesma e o resultado foi um isolamento social cada vez mais forte.
Minha mãe histérica como sempre, tirou minha carta de despedida da bolsa e mostrou pra uma das minhas tias. Ela mais histérica ainda, colocou uma das mãos sobre o meu ombro e disse que isso era uma doença, que era só eu tomar os remédios direitinho e eu ficaria bem. Bom, ela é médica e ouvir isso me motivava mais ainda a ingerir as medicações certinhas mesmo apesar dos efeitos colaterais.
Ela repetia: "-Tem que tratar, tem que tratar, tem que tratar!" Ela mal percebeu mas neste momento ela já estava me empurrando com força, foi quando disse que perdeu a sua filha assim.
Neste momento um silêncio enorme invadiu o quarto... "O que ela estava falando?" -eu pensei- Eu sabia da morte da minha prima há uns 3 anos, mas foi em um acidente de carro.
Minha tia estava ali, paralisada, segurando aquele pedaço de papel na mão.. as lágrimas embaçavam seus óculos quando de repente alterou seu tom de voz e gritava: "-7 meses após a morte da minha filha, eu encontrei uma carta exatamente igual a essa dentro de um dos seus livros. Não foi um acidente, ela se matou." Eu podia sentir o tamanho da revolta naquele timbre de voz... ela balançava o papel e gritava "-uma carta de despedida exatamente igual a essa. Que se eu tivesse encontrado antes, não teria acontecido nada disso". Eu notava um grande sentimento de culpa naquelas palavras, como pode uma médica perder sua única filha por não ter percebido nela uma doença? Deve ser realmente difícil...
E eu, eu me sentia cada vez mais assustada, porém com mais determinação de me curar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário