quinta-feira, 21 de junho de 2012

Para a doença, o remédio...

A data do vestibular estava se aproximando e eu já não conseguia mais me reconhecer, não pensava mais em me matar, afinal depois do ocorrido minha família não era mais a mesma, minha mãe havia perdido o brilho do olhar, eu me sentia culpada. Sem falar que eu era vigiada o tempo todo e minhas coisas sempre revistadas. Mas aquela garota cheia de energia e vontades não existia mais, e sim uma jovem passiva, sem força e sem vontade, fazer até mesmo as atividades mais simples como levantar da cama, lavar o cabelo era difícil.. muitas vezes fui taxada de preguiçosa, desleixada.
E na verdade eu não me importava mesmo, fui deixando de cuidar, olhava as fotos e em nenhuma delas havia um sorriso, no lugar do cabelo loiro existia agora o ruivo.. vermelho, sangue, cortes? Sim, talvez fosse essa a justificativa pra mantê-los tingidos assim. Não podia mais me cortar, primeiro pq causava sofrimento a minha família e segundo pq eu era vigiada e tinha constantemente minhas coisas reviradas. Então busquei outras alternativas de multilação e dor, como vários brincos nas orelhas, piercing. O que me fazia estar cada vez mais distante de mim mesma.
Agora eu era capaz de admitir estar doente. E toda pessoa doente precisa de remédios. Foi quando meu pai resolveu tentar me medicar e eu aceitei. Tentamos vários tipos de antidepressivo, porém sem sucesso.
Com o tempo, fui perdendo completamente a vontade de sair e estar perto de pessoas. Medo, pânico, sensação de estar sempre acompanhada. 
Foi quando eu decidi chamar meus pais e comunicar uma decisão: "-Eu quero procurar um novo psiquiatra."
Lembro da alegria e empolgação da minha mãe: "Dessa vez vai dar certo" ela dizia, "pois agora vc está procurando por vontade própria e é preciso querer pra dar certo."
Não tinhamos referencia de profissionais, o mais recomendado da cidade foi aquela tragédia! Então minha mãe abriu o catálogo telefônico na parte de médicos, bateu o olho em um dos nomes e disse firme: "-Vai ser essa!". Ligamos e marcamos a consulta.
Cheguei tímida ao consultório, mas dessa vez tive uma boa sensação, um espaço bacana, claro, bem ventilado e pintado com cores alegres. Aquela parede laranja me divertia, tinha um formato ondulado e eu gostava das pastilhas de vidro que distorciam a cara da gente se olhasse de perto.
Fui recebida com um sorriso da simpática secretária que me convidou a sentar e ler uma revista enquanto a Dra. não me chamava. Embora eu não tivesse condiçoes nenhuma para ler notícias, aceitei como forma de agradecimento por tamanha atenção da moça. Em poucos minutos a porta se abriu, era uma mulher já mais madura, bem vestida. Me chamou pelo nome. Ao entrar no consultório senti minhas mãos gelarem, eu teria que contar tudo que havia acontecido e ficar relembrando aquelas coisas não era nada agradável. Mas tinha gostado da sala... grande, arejada, clara e acolhedora pela iluminação natural dos raios solares que entravam pela cortina aberta. Ela me direcionou para um sofá grande e se sentou na minha frente em sua poltrona.
Dessa vez não sei o que houve, como as palavras sairam da minha boca de forma tão fluente, mas consegui contar tudo que havia acontecido comigo até então. 
Ela não se alterou muito... nada de se jogar pela sala numa cadeira de rodinhas, nada de sapatos bizarros balançando em minha direção. Nada de euforia ou dramas. Ao contrário de tudo isso, um olhar doce.
Me receitou Litio e Olanzapina. Me pareceu estranho, afinal eu já sabia um monte de nomes de antidepressivos e estes eu não conhecia. Fui logo me informar. Não eram antidepressivos e sim um estabilizador de humor e um antipsicótico.
Será que dessa vez seria mesmo diferente? Será que agora daria mesmo certo? São perguntas que mesmo transmitindo incerteza já possuiam um tom de esperança....

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