Eu estava verdadeiramente empolgada com os estudos e então meus pais resolveram me apoiar.
Meu pai disse que ia manter minha matrícula trancada na arquitetura durante um ano, e este seria o prazo que ele daria pra eu passar em medicina, caso contrário eu voltaria mesmo que a força pra arquitetura.
Aceitei a proposta... adorava desafios.
Estudei muito, me matriculei num cursinho, tinha aulas durante o dia, e a noite eu estudava sozinha até as 3h da manhã. Era uma nova rotina pra mim que sempre tive o hábito de dormir cedo, meu rendimento a noite era péssimo. Mas desafiava o sono... tomava banhos no meio da noite, café. Eu não podia perder tempo!!
Quando o edital da prova foi divulgado eu me desanimei bastante... a prova não era de matérias específicas apenas.. e além disso teriam questões abertas também.
Nunca tive grande afinidade com os números e não imaginava me deparar logo agora com eles.
Resolvi então contratar uma professora particular de física e matemática pra me ajudar. Eu estava realmente disposta a dar o meu melhor.
Nesta mesma época eu procurei também um endocrinologista que me passou uma dieta, eu estava começando a perder peso e isso me deixava feliz, aumentava também minha disposição.
Fiz a prova e consegui ser aprovada. Ali estava a confirmação pra mim e para todos que eu era capaz de tudo que eu quisesse. Meu pai se encheu de orgulho por ter um dos filhos seguindo sua carreira. Minha mãe ainda não acreditava, ligou para os amigos, fez um churrasco em comemoração.
Senti o quanto meus irmãos torciam por mim e queriam o meu bem.
O meu ano do curso de arquitetura não foi atoa, não foi jogado fora. Foi necessário para o meu amadurecimento, necessário pra que eu percebesse que não era aquilo mesmo que queria pra minha vida e que eu tinha que juntar coragem pra tentar o curso de medicina.
Além disso, serviu pro meu irmão mais novo, que se interessou vendo meus trabalhos e decidiu prestar o vestibular pra arquitetura. Era legal sentir essa admiração.
O curso de medicina na minha faculdade utilizava já esta nova metodologia de ensino, o PBL (Problem-based learning - Aprendizado baseado em problemas). Acredito ser um método bastante cruel. Imagine aprender medicina de forma auto-didata. Imagine vc acostumado sua vida inteira com aulas, com um professor explicando a matéria e de repente vc tem que abrir um daqueles livros gigantes e aprender medicina sozinho.
Foi desesperador a primeira vez que fiz isso, lembro como se fosse hoje eu com aquele livro enorme e minha cara apavorada tentando ler aquelas palavras difíceis dos termos médicos sem ter a mínima noção do que eram.
Estudávamos em casa determinado assunto e nos reuníamos em grupos de 6 a 7 colegas e um professor. Essas reuniões chamavam-se tutorias. Alí deveria acontecer um debate sobre a matéria estudada, levantando discussões que fossem tirar nossas dúvidas e sedimentar o conhecimento.
Muito bonito e interessante a teoria do PBL, não é mesmo?
Mas não era bem assim na prática...
Os dias de tutorias viraram um tormento. Era uma disputa enorme entre os alunos, um queria se sobressair mais do que o outro, afinal de contas estavamos sob constante observação e avaliação pelo tutor. E após o debate, tinha sempre uma avaliação. Um aluno tinha que avaliar o outro, falar como foi o desempenho dele, se ele estudou, se participou bem. Era um momento de críticas construtivas mas no lugar disso o que acontecia na verdade eram críticas pessoais, ofensas.
Agora eu teria que lidar com uma coisa a mais: a timidez, o medo de falar e as críticas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário