domingo, 24 de junho de 2012

Um ano...

As coisas estavam indo bem demais pra ser verdade...
O tempo foi se passando e com ele a empolgação também. Todas aquelas novidades do curso foram se tornando rotina.
Me sentia extremamente culpada... eu tinha tudo na vida, família, boas condições financeiras, estava cursando uma faculdade, tudo o que toda jovem da minha idade queria... Mas mesmo assim me sentia triste, mesmo assim as coisas não pareciam ter sentido, sentia um vazio imenso dentro de mim. Não poderia me sentir triste mas sentia, e todos sofriam sem entender, por não haver motivos.
Minha cabeça começou a se desorganizar novamente, não fazia mais questão de interpretar papéis, já não me importava mais... sentia necessidade dos cortes novamente, da dor física junto do sangue aliviando um pouco a dor da alma.
Meus instrumentos de aula eram bastantes convidativos, possuia um estilete enorme para apontar os lápis. Fui fraca e comecei com leves arranhões, nada demais mas a água quente quando batia ali durante o banho ardia me fazendo lembrar que apesar de pequenos estavam ali. Comecei a fazer os cortes sempre no mesmo lugar, por cima, para evitar mais cicatrizes e tentar manter aquilo escondido. Mas isso dificultava também a cicatrização e comecei a ter processos inflamatórios em alguns locais.
Pedi ajuda a minha psiquiatra, ela com certeza me ajudaria! Tinha essa empatia de confiança por aquela senhora.
Ela aumentou minhas medicações... com 900mg de lítio + 30mg de olanzapina eu estava extremamente sonolenta, dormia a maior parte do tempo... seria essa a estratégia? dormir pra não me cortar? pra não dar tempo de sentir tristeza? de pensar? de nada?
Ficou muito difícil conseguir ir pras aulas a noite, me concentrar, me sentia sempre sonolenta, cansada, corpo pesado, lenta... Começou também um tremor muito forte nas mãos, era impossível conseguir desenhar assim! Fui começando a admitir que não dava mais pra continar, comecei a atrasar entregas de trabalho, deixar de fazer as resenhas, de estudar, e isso tudo doía imensamente afinal tinha essa mania de perfeccionismo, de querer sempre fazer as coisas bem feitas, de ser dedica, entre os melhores alunos e pra mim não fazia sentido continuar alí fazendo as coisas pela metade, era melhor parar. Isso apavorava minha mãe... ela dizia que se eu parasse e ficasse ociosa eu ia piorar ainda mais e adorava repetir pra mim o velho ditado "mente ociosa é oficina do diabo" e por isso mesmo diante da situação, gostava de me ver ali arrastando o curso.
Um dia estavamos na aula de desenho e eu fui pegar um dos lápis para apontar... tirei o estilete da mochila, deslizei o cabo expondo a lâmina e descamava ali lentamente a madeira do lápis, aquele movimento me hipnotizava. Depois da ponta feita, não guardei o estilete, deixei ali em cima da prancheta ao lado do bloco de folhas... a cada 3 ou 4 riscos no papel, meu olhar se desviava para aquele objeto. Achei melhor então tirar aquilo do alcance dos meus olhos e guardei novamente no fundo da mochila.
Começou o horário de desenho técnico e eu não conseguia segurar firme a régua e a lapiseira nas mãos trêmulas. Traçar uma reta firme era um tormento. Era um tempo enorme pra conseguir transformar as escalas dos projetos mesmo com o escalímetro ali. Os tracinhos dos milimetros nas réguas pareciam estar borrados, desfocados... medir 2cm demorava 15min. Fui ficando impaciente, nervosa, aflita, embolei 4 folhas de projeto esse dia na aula e joguei fora pra recomeçar. Na quinta vez a professora de ar maternal se sentou ao meu lado, pacientemente perguntando o que estava acontecendo comigo naquela semana. Eu não conseguia falar, não conseguia levantar, não conseguia ter reação nenhuma. 
Começou o último horário daquele dia... história da arte... a sala escura, com a professora apresentando várias fotos no datashow. 
Me lembro de estar bastante estranha, saí da sala pra dar uma volta, talvez faria bem.... não sei o que houve este dia, se entrei em transe, se foi ato automático, só sei que eu não tinha controle sobre mim e quando voltei a ficar consciente, eu levei um baita susto! Estava no banheiro da faculdade, com o estilete sujo na mão... sangue pelo chão e escorrendo nos meus ombros e braços. O que eu havia feito?? Assustada e sem reação, fui tentar limpar e bem nesta hora uma das minhas colegas entrou no banheiro, até tentou disfarçar seu desespero, mas estava visivelmente assustada. Me levou até uma das repartições dos vazos sanitários e foi calmamente me limpando com papel higiênico tentando conversar comigo pra entender aquilo. Uma funcionária da faculdade telefonou na minha casa, pedindo pra me buscarem.
Levei maior bronca e ninguém acreditava que eu estava inconsciente naquele ato. 
Já estava fazendo um ano de curso e eu anunciei que eu tinha dado o meu melhor, havia tentado de tudo, mas não dava mais pra continuar. Minha mãe então disse que só permitiria eu parar se eu terminasse o semestre, assim seria possível trancar minha matrícula. Então assim eu fiz.

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