Nunca imaginei me sentir assim... tão sem vida, tão sem controle, tão sem o que fazer!
Perdi meus amigos, perdi a faculdade, perdi minha fé em Deus, estava perdendo minha família também, aos poucos eu sentia que até mesmo eles estavam deixando de acreditar.
Ganhei solidão, ganhei culpa, ganhei peso... desde que comecei com as medicações engordei 14kg.
O que era mais estranho era que mesmo diante de tudo isso, não me importava. Devo dizer que isso era a pior parte de tudo. Seria também um efeito colateral daqueles remédios? Acho que até preferia a tristeza, pq vou confessar que triste mesmo é não sentir nada!! Não se sentir viva mas sim um robô em modo automático.
Aquela psiquiatra abençoada entendeu. Parecia ser a única criatura que ainda acreditava que poderia ser diferente!
Resolveu diminuir a dose do antipsicótico, de forma lenta e gradual.. Eu adorava a forma que ela terminava as sessões de psicanálise dizendo que se ela não acreditasse no trabalho dela, ela não estaria alí.
Os dias foram se passando, as semanas, os meses e eu parecia estar mais adaptada aos efeitos de sonolência e com a dose menor eu estava menos robótica, começava a ter sentimentos, emoções e aquilo me fazia me sentir mais humana. Me lembrava de relance da jovem tão querida e requisitada que eu era, determinada, cheia de sentimentos e idealizações. E essas lembranças me faziam querer mudar!!!
Resolvi utilizar todos os recurssos a meu favor, fazia terapia agora 2 a 3 vezes por semana e me desafiei a falar mais, falar tudo, despejar tudo alí! E eu agora entendia o porque da tão famosa frase "falar é terapêutico, as palavras curam".
Antes os dias de terapia eram um tormento para mim, me sentia observada, analisada, e os 40 minutos pareciam 40 horas intermináveis. Agora eu me sentia a vontade, as vezes chegava a falar até por uma hora. E de tanto falar eu fui permitindo aquela senhora me conhecer melhor, e eu também me re-conhecer novamente junto a ela. Entender minhas atitudes, minhas reações.
Os dias de ir naquele consultório foram se tornando empolgantes, eu ficava feliz desde a véspera... Gostava de chegar uns 20 minutos antes do meu horário só pra sentar perto da simpática secretária que agora já me recebia com um abraço cativante. Me sentia acolhida e até mesmo querida alí, mesmo com todo o distanciamento ético-profissional da médica.
Eu senti que PRECISAVA aproveitar aquele momento e mudar de vez minha vida, meu destino ou eu não suportaria mais.
Foi quando comecei a trabalhar a idéia de tentar outro vestibular... desta vez para o curso de medicina.
Me sentiria bem e extremamente feliz cuidando das pessoas, amava a idéia de poder salvar vidas, curar doenças.
Estava empolgada, mas eu me lembrava também da vida do meu pai, médico. Ou melhor, da falta de vida que ele tinha. Estava sempre no hospital ou consultório, trabalhava muito. Talvez por ser a única filha mulher eu era a mais próxima e ligada a ele. Foi um pai ausente. Não participava dos trabalhos e apresentações da escola, minha mãe sempre tentava explicar que ele trabalhava pra cuidar da gente. Era raro ele estar presente também com a gente em aniversários, natais, reveillons. E quase não tinha férias, mesmo que a gente viajasse, ele nunca ficava mais de 5 ou 6 dias com a gente. Estudava muito! Todos os dias! Acordava sempre as 5h da manhã e se sentava no sofá com aqueles livros enormes... algumas vezes eu levantava também, me sentava ao lado dele no sofá com meus lápis de cor.. adorava desenhar pra ele, muitas vezes adormecia alí dividindo o seu colo com aqueles livros.
Será que eu queria essa vida pra mim? Será que esse também seria o meu futuro? Será que eu daria conta? Todos esses questionamentos me causavam medo de falar com minha família... e se eu fracassasse mais uma vez?!
O tempo estava se passando, e a psiquiatra estava convencida de que eu estava pronta pra tentar sim, chamou minha mãe em seu consultório e me ajudou a contar e convencê-la de que eu deveria ter esta chance.
Eu teria menos de 6 meses pra estudar até o vestibular!!! Isso me preocupava e eu percebia que causava também grande tensão em todos a minha volta. As chances de eu não conseguir passar eram enormes com tão pouco tempo de estudo e diante todos aqueles problemas. Se eu fosse reprovada poderia ser um forte fator a me deixar pior e perder aquela pequena melhora que eu conquistei com tanto esforço.
"triste mesmo é não sentir nada"... e é feliz o desafio!
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